7.2.22

IFFR 2022: The worst person in the world

The worst person in the world
Imagem: DIVULGAÇÃO

Texto que faz parte da cobertura da edição 2022 do Festival de cinema de Rotterdam

This critic is part of IFFR 2022 coverage

As vezes o mundo para, simplesmente para. Isso acontece por uma série de motivos, mas no caso de Julie, protagonista de The Worst Person in the world, dirigido e escrito por Joachim Trier, foi devido a esperança repentina que surgiu para ela em dado momento da trama.

O mundo dela parou e ela correu. Ela correu em direção a aquilo que ela pensava ser o ideal naquele momento, sem se importar com o que viria depois, apenas pensando no agora, correndo e correndo e correndo, sem parar, até que ela chega no ponto o qual acredita ser o certo, ele prova ser o errado e ela volta a correr, mas dessa vez, sem o mundo parar.

Como todo jovem (ou a menos a maioria deles), Julie, que tem 30 anos (ou está próxima dessa idade), ela vive tentando, indo de coisa em coisa, esperando que em algum momento, o mundo dela pare e sinta esperança novamente. Para muita gente, esse momento de o mundo parar por esperança, não acontece, porém pouco importa, o caminho é o mesmo tanto para os que tiveram esse privilégio, quanto para aqueles que não tiveram, é a tentativa.

Pois Julie quer, assim como todos nós, correr por um mundo parado, onde cada pessoa cuida de suas próprias vidas e onde cada preocupação é a sua própria preocupação e não a do outro. Muitas vezes a pausa é necessária, mesmo não sendo desejada e assim como a protagonista, queremos esquecer disso e nos forçar a continuar tentando.

Talvez a não tentativa seja uma tentativa apesar de tudo. O não movimento, a inércia, seja, paradoxalmente, uma tentativa de movimento, um teste para a mudança, uma volta no quarteirão pessoal do mundo. Provavelmente, Renate Reinsve (atriz que interpreta Julie), também passe pelos dilemas de sua personagem, talvez, o que mexa com o público nesse filme seja o fato de vermos os nossos dilemas na tela.

Vemos a inércia e o movimento trabalhados de forma conjunta, novamente de maneira paradoxal. Isso é possível através de momentos em que o mundo para, mas sabemos que ele não parou, pode ter parado para nós, claro, mas não de maneira geral. Nós podemos desejar a inércia, mas o mundo nos força a se mexer, mesmo não querendo de forma alguma a fazer isso.

Esse ciclo de movimento, o diálogo de nós com nossas tentativas, de nossas reflexões com a maneira que nós as trabalhamos, pode ser como a fumaça de cigarro passado de uma pessoa para a outra ou como o efeito de um entorpecente, de um orgasmo, como se a gente fizesse parte de um fluxo constante, de um ciclo imbatível, que irá nos destruir no final independente do caminho que nós escolhemos.

Esse fluxo combinado a essa inércia nos lembra sempre que nós somos os vilões de nós mesmos, que assistimos a nossa vida de camarote, que somos coadjuvantes de nossa própria vida e dentro dessa tristeza, dessas inúmeras tentativas e do papel principal negado a nós, raramente o mundo vai parar, tentaremos quase tudo em nossas trajetórias por simples obrigação e tentaremos esquecer de alguma forma que tudo é um ciclo, tudo é um fluxo e tudo volta, assim como vemos acontecer com Julie. Inevitável.

Texto que faz parte da cobertura da edição 2022 do Festival de cinema de Rotterdam

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