10.2.22

Crítica: Licorice Pizza

Licorice Pizza
Imagem: DIVULGAÇÃO / Universal
Dá vontade de deixar esse texto em branco e não escrever nada. Na verdade, isso seria um bom teste e o eu faço constantemente, a cada vez que conheço uma pessoa nova ou acabo me aproximando de alguém já conhecido, mas que não era um amigo até então, eu fico em silêncio e eu vejo como a pessoa reage, é desconfortável? É sentida, em ambos, a necessidade de falar algo, para preencher aquele inevitável vazio?

Em dado momento de “Licorice Pizza”, Gary (Cooper Hoffman) telefona para Alana (Alana Haim). Anos 70, tudo explodia em luzes e sons, Bowie fazia sucesso nas rádios, novos 007 eram lançados constantemente nos cinemas, o barulho dos fliperamas consumia as ruas e o trânsito era ainda mais caótico. Gary liga, Alana atende, silêncio. Telefone desligado, ligam de novo um para o outro, ele atende, silêncio. Não importava o que seria dito, não importava se algo seria dito, o importante era apenas estar ali, um para o outro, juntos caso precisassem.

O problema é que ele tem 15 anos e ela 25. Mas o fato deles ficarem confortáveis um com o outro para manterem o silêncio entre si, sem sentirem a necessidade de nenhum som, é algo de causar inveja. Dirigido e escrito por Paul Thomas Anderson, acompanhamos esses dois em meio a luta pela vida, ele é ator, ela faz o que tem chance de fazer, ambos são sozinhos e correm em meio ao vazio por algo que nem ao menos sabem o que é.

Essa corrida dentro da confusão não tem espaço, não cabe barulho, mas barulho é tudo o que ouvimos e muitas vezes ficamos sorrindo inconscientemente, porque vemos algo real, algo próximo de nós, essa luta por conseguir lidar com o próprio silêncio, por querer ter alguém para compartilhar o silêncio ou apenas ficar em silêncio.

É inegável as formas com as quais PTA trabalha com isso e com a constante tensão do falar, do se expressar, provavelmente são nesses momentos onde a diferença de idade fica mais clara. Bom, claro, em geral, a sociedade permite que homens sejam tratados como meninos mesmo quando são homens e Gary é um menino e age com imaturidade, até característico da idade, mas não menos irritante, o choque com Alana é justamente essa confusão entre a maturidade dela (não apenas devido a idade, ela claramente não era tão boba quando tinha 15 anos) e a paz que Gary, apesar de tudo, faz ela sentir.

As confusões dos dois parecem se encaixar de alguma forma, inexplicável para gente, público, mas plausível para eles, Gary e Alana, por estarem vivendo aquilo. Passamos boa parte do tempo de nossas vidas querendo compartilhar nossas confusões e silêncios e apenas quem tem a sorte de conseguir algo assim, é capaz de entender o que os personagens passam.

Claro, muitas vezes até encontramos isso em outras pessoas, o mundo tem uma quantidade considerável de gente e é esperado e até natural, que encontremos alguém com quem possamos ficar em silêncio, para, um tempo depois, o barulho voltar a ocupar aquele espaço e a relação acabar. Algumas pessoas já passaram no “meu” teste, não estou imune a isso.

Talvez por isso, as rotinas de Gary e Alana sejam tão próximas? A vida dos dois é repleta de pessoas, Alana é abordada por vários homens, em várias situações diferentes, todos com o mesmo nível de maturidade, Gary também tem outras meninas, da idade dele, que do jeito delas e claro, com atitudes comuns para pessoas de 15 anos, acabam atraindo o jovem. Mas em nenhum momento eles encontram a paz que encontram um no outro, nessas pessoas.

Em meio a constante luta por paz e silêncio, provavelmente nunca perdoarei PTA por ser tão bom em manipular o público. Além de ficarmos sorrindo em uma série de momentos (primeiro encontro deles, por exemplo) e chocados em outros momentos (Alana dirigindo um caminhão sem combustível), somos levados a torcer por aquela relação mesmo com a idade e imaturidade de Gary.

Imagino que isso funcione devido a já citada paz que eles encontram um no outro. O silêncio que permite que eles fiquem deitados juntos num colchão de água, que não falem nada em uma ligação telefônica, que procurem um ao outro dentro de seus vazios e que corram no meio da rua, apenas para estar ali, em silêncio, no meio da confusão, juntos.

Porque o importante é se sentir confortável dentro do seu silêncio. Achar alguém que fique confortável com você é lucro, sorte. Eu vou continuar fazendo meu teste, continuar achando que não vai dar certo, lidar com meu silêncio, confusão, não achar paz e continuar pensando que isso aqui deveria ser uma folha em branco. 

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