4.3.22

Glasgow Film Festival: Ashgrove

Ashgrove
Imagem: DIVULGAÇÃO

Texto que faz parte da cobertura da edição 2022 do Festival de cinema de Glasgow

This critic is part of Glasgow Film Festival 2022 coverage

Tentei não pensar em timing quando comecei a ver Ashgrove. Filme que aborda uma crise em relação ao estoque de água no mundo e cientistas tentando resolver isso a todo custo. Claro, o diretor e um dos roteiristas, Jeremy LaMonde, deve ter pensado nessa história durante a pandemia e apenas trocou o principal causador da crise.

Porém, ao abordar principalmente a iminente separação do casal Jennifer Ashgrove (Amanda Brugel) e Frank (Jonas Chernick), LaMonde escolhe trabalhar esses cenários menores, onde focamos nas pessoas que vivem durante esse momento de crise, lidando com suas próprias crises e não com a crise em si, como veríamos em um filme-catástrofe, por exemplo.

Ashgrove é uma cientista que após apagar devido ao excesso de trabalho, vai passar um tempo com seu marido em uma fazenda. É lá que o diretor mostra ao público como esses dois não se amam mais já a um tempo e nesse cenário vemos um relacionamento fadado ao fim.

Talvez, devido a crise da água, o casal tenha decidido ficar junto por mais tempo ou por algum outro motivo que não sabemos e nem precisamos saber. O importante, é que sabemos do perigo do mundo acabar ao mesmo tempo em que vemos o mundo daquele casal acabar, apenas eles não tem a coragem necessária de perceber isso e tomar a atitude esperada, até aguardada por eles, que é acabar com aquilo de vez.

Isso fica muito claro através da atuação de Brugel e Chernick. Ambos se comportam como se aquele relacionamento fosse uma obrigação a cumprir e não algo que eles fizeram por livre e espontânea vontade. É como se eles tivessem uma lista de coisas a fazer para passar o dia juntos (até vemos parcialmente isso em certa cena) e quando essa lista acabar, eles finalmente atingem um estado próximo a paz.

Porque paz é impossível na situação deles, não é o que eles querem. Eles não querem ter paz um com o outro, eles querem ter paz sozinhos, porém nenhum deles tem a coragem necessária para tal. É como se o apagão que a personagem principal teve devido ao trabalho, tivesse atingido o casal devido a falta de vontade em permanecer juntos.

Levando em consideração que muitas vezes, em vários cenários, mesmo com o mundo acabando, em crises muito sérias, você esquece dessas coisas e passa a focar no que é seu, “Ashgrove” se torna um retrato interessante desse microcenário. Pode acontecer o que for lá fora, a vida ainda continua dentro de você. 

Texto que faz parte da cobertura da edição 2022 do Festival de cinema de Glasgow

This critic is part of Glasgow Film Festival 2022 coverage

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