12.3.22

Glasgow Film Festival: The quiet girl

The quiet girl
Imagem: DIVULGAÇÃO

Texto que faz parte da cobertura da edição 2022 do Festival de cinema de Glasgow

This critic is part of Glasgow Film Festival 2022 coverage

É complicado para uma criança, que cresceu em um ambiente frio e completamente lacônico, se comportar da maneira que é esperado dela. Em geral, isso não costuma ser culpa da criança, é culpa de um lar construído previamente pelos pais desta, que tornaram o local impassível, frio, assustador para qualquer um, inclusive adultos com olhos um pouco mais atentos para a situação.

Com certeza esse é o caso de Caít (Catherine Clinch) em “The quiet girl” dirigido e escrito por Colm Bairead. Ela, uma menina de seus 9, 10 anos, assustada e receosa de qualquer tipo de relação devido as pequenas agressividades que sofre, pensa que o mundo é daquele jeito, tal qual sua casa é, muita gente, todos frios e desatenciosos, até que seus pais a levam para passar um verão em outra cidade, junto com um casal mais velho e sem filhos.

Como a maioria das coisas na vida que não queremos, são as que mais ensinam (papo de coach, estou ciente), Caít aprende como o mundo pode ser bom e que sua vida é, para muitas pessoas, inclusive aquele casal, algo inimaginável, quase um caso isolado. Para as pessoas que a hospedam, ela viver em um lar frio e com medo de tudo, principalmente dos pais e irmãos mais velhos, é algo inconcebível.

Isso porque nós damos ao mundo aquilo que temos em nós. Os pais da menina tem em si frieza, agressividade passiva, assim como seus irmãos e boa parte das crianças na escola onde ela estuda, em compensação, o casal que a hospeda, tem amor, carinho e uma vida o mais próximo possível do leve para oferecer.

Felizmente, Bairead não estrutura seu filme de forma a parecer uma trajetória clichê onde tudo é bom e a personagem principal é constantemente preenchida de descobertas boas e felizes. Tudo o que acontece no filme, com destaque no desenvolvimento da relação e do carinho de Caít com o casal, é algo natural, não existe nada forçado dentro da história que permita um desenvolvimento de clichê.

Até mesmo a questão do idioma, pensando que a protagonista se expressa muito melhor em irlandês do que em inglês e os pais dela apenas falam em inglês, contribuem para essa não queda na mesmice, seja devido ao título do filme – ela é quieta, sim, muito mais por cautela e por esse ponto do idioma, do que por não ter nada a dizer – ou devido a forma de se expressar de uma pessoa com a outra.

Muitas vezes, o que precisamos é a oportunidade de se expressar, alguém com quem criemos uma relação de confiança, independente do momento em que estamos nas nossas trajetórias. Caít precisava disso, para poder crescer ao menos com uma lembrança da existência de carinho, memória que ela, provavelmente, irá usar no futuro para dar carinho e afeto para outra pessoa sem importar o grau ou tipo de relação desenvolvida. Ela não é uma “quiet girl” porque quer ou porque simplesmente é, ela é porque não teve a oportunidade de se expressar. E é melhor ter ao menos uma, mesmo que ela acabe, do que não ter nenhuma. 

Texto que faz parte da cobertura da edição 2022 do Festival de cinema de Glasgow

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