27.10.16

Crítica: A Garota Desconhecida



O mais novo longa dos irmãos Dardenne apresenta aquilo que eles sabem fazer de melhor, que é o estudo de personagem. A obra conta a historia da médica Jenny Davin, que trabalhando em um consultório, decide não abrir a porta para uma pessoa que tocou o interfone após o expediente da médica ter acabado. Porém, depois da recusa da doutora, a mulher que tocou, morre, e não se sabe quem ela é.

Aqui vemos uma profissional altamente dedicada, interpretada por Adele Haenel, que começa o filme de forma otimista, e com o decorrer da projeção passa a sentir culpa por não ter atendido o interfone. A culpa da moça é o motor para todas as atitudes dela, por conta desse sentimento, ela passa a investigar para descobrir a identidade da vitima, pergunta para todos os seus pacientes, para as pessoas que conhece e com isso vemos a empatia que  a personagem tem pelas pessoas.




Empatia que provavelmente a levou a escolher a profissão dela, mas que ainda assim ela reprime, falando para seu estagiário ser distante dos pacientes e não ter emoções durante um diagnostico, essa repressão se torna culpa, porque, se ela não usasse a distancia como principio médico, a porta teria sido aberta e a garota provavelmente estaria viva.

A repressão pessoal dela é muito bem exposta pelo figurino, sempre usando um mesmo casaco cinza que está velho, sempre com camisetas e blusas básicas, que tem uma cor só, isso mostra como ela não se abre ao mundo, porém a cor das camisetas que variam entre o azul claro e o vermelho representa vontade de ser mais aberta e de mudar em relação aos outros.

Os Dardenne usam aqui uma fotografia básica, que é escura, e que mostra a cidade de Liege sempre nublada e ameaçando chover, além de estar sempre frio, apesar de esse ponto da critica parecer uma previsão do tempo isso faz diferença na história, a vida de Jenny é nublada, não vemos a família dela (Caso a tenha), não vemos amigos dela, ela é sozinha, sem nenhum tipo de relação de proximidade, a não ser com o estagiário, a qual ela estraga nos primeiros cinco minutos de filme, e com os seus pacientes, com os quais é gentil, apesar de ser firme nas consultas.

A culpa, ligada com a vida nublada da moça, nos dão os motivos pelos quais ela se importa tanto em descobrir a identidade da vitima, como ela tem proximidade com os seus pacientes e a desconhecida poderia ter sido uma delas, ela se importa em descobrir alguém com o qual ela poderia vir a ter uma relação.

Com a fotografia crua, a ausência de trilha sonora, o clima de suspense é instaurado no filme de forma orgânica, o público se envolve e tem vontade de descobrir quem é a vitima, o que ela fazia e o que realmente aconteceu com ela para ter batido em estabelecimento qualquer durante a madrugada.

Os irmãos Dardenne criam um suspense investigativo que foge dos padrões, com a atmosfera crua e falta de ação, eles acertam em passar uma realidade nos casos de desaparecimento, e ainda, colocam um belo estudo de personagem no enredo. Aqui, conseguimos ver que as duas Palma de Ouro em Cannes não são a toa, eles sabem como contar historias usando formas de linguagem diversas.


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