31.10.16

Crítica: Elle



Paul Verhoeven depois que dirigiu Robocop, apareceu de forma esparsa, com filmes bons e outros nem tanto, sempre esperamos ver aquela aura de suspense e ação em suas obras. É o que vemos em “Elle”, filme que tem uma ação psicológica e um suspense de tirar o folego.

Acompanhamos a historia de Michele, interpretada pela sempre brilhante Isabelle Huppert, que é dona de uma produtora de jogos de vídeo game. Ela foi atacada e abusada sexualmente dentro de sua própria casa, porém, após o horrível acontecimento, ela passa a receber mensagens do criminoso, além de ele ir a sua casa quando ela não está.




O suspense aqui é também um estudo de personagem, Michele é totalmente egoísta, e acredito eu que ela apresente distúrbios psicológicos, tudo que acontece que não a envolva diretamente é irrelevante, mas, tudo mesmo, desde acontecimentos com a mãe, até o filho dela. Usando de um sarcasmo e de um cinismo que surpreendem, ela se blinda contra tudo e usa de pequenas fugas para ter algum tipo de prazer, como ser odiada pelos funcionários, e manter um caso com o marido da melhor amiga e sócia.

O sarcasmo dela acontece em momentos que são inesperados, o que acaba levando o espectador ao riso, como por exemplo, na cena em que ela joga na cara do filho que, o bebe que ele cria não é dele, “Ele é filho de quem então?” “Do pai dele, e o pai dele não é você”, antes que considerem isso como spoiler, esse é apenas um exemplo, há situações em que o sarcasmo é maior e muito mais perturbador. Essa perturbação disfarçada de cinismo é acentuada pela atuação excelente de Isabelle Huppert, desde a forma segura de andar, até o meio sorriso dela quando uma batalha foi ganha, tudo na atuação dela é a blindagem sarcástica, na cena do jantar isso fica bem claro, e talvez essa seja a grande cena do filme, por conta dos diálogos pontuados com um cinismo afiadíssimo.

Tecnicamente falando o filme é uma forma altamente diferente de contar a historia, a fotografia é escura, mesmo em cenas ensolaradas, apenas percebemos a presença do sol por conta do uso de óculos escuros pela protagonista, os figurinos em geral são escuros, e os da Michele variam entre tons pasteis e entre cores como preto, vermelho e azul, expondo a forma como ela encara a vida, sendo extremamente pratica e cruel. O uso da trilha é muito bem feito, sendo esparsa e apenas aparecendo nas cenas de maior ação, seja ela física ou psicológica, e a trilha surge de repente, assustando em alguns momentos, pontuando a cena com elegância em outros e ainda dando pistas sobre o que vai ou pode acontecer. A montagem é muito bem feita, com cortes nos pontos certos, a montagem unida a trilha tornam as cenas muito bonitas, mesmo com uma fotografia mais sóbria, e o grande exemplo disso é a cena do jantar, que é fácil de assistir visualmente, porém difícil de ver por conta da tensão criada pela construção da cena e por uma trilha bem encaixada.

O titulo do filme é justificado também, vemos que Michele tem uma vida ótima, e que mesmo assim, ela sente que falta algo, e levando em consideração que “Elle” é apelido de “Michele” (Mesmo ela não chamada assim no filme) diz alguma coisa, o “corte” do nome pela metade representa essa sensação de falta com a qual a personagem convive, e também ela morar sozinha em uma casa tão grande como aquela pode ser uma representação física dessa ausência psicológica que ela sente.

A temática do filme foi usada em outros filmes lançados este ano, como “O Apartamento” e “A Garota Desconhecida”, porém, esse aqui apresenta uma forma diferente de abordagem, em “O Apartamento” vemos o abuso sexual sendo abordado em uma sociedade escancaradamente machista, onde a vingança e humilhação em publico são encorajadas e no Oriente Médio, em “A Garota Desconhecida” vemos algo mais voltado à empatia, a mulher ajudando e buscando descobrir a identidade de outra mulher, e usando a culpa como motor para isso, no caso de “Elle” vemos a parte mental, e como a cabeça da vitima fica após o acontecido, a personagem já tinha problemas psicológicos antes de acontecer, mas, depois que acontece e com o passar do tempo, os problemas já existentes se acentuam, e outros aparecem, como a síndrome de Estocolmo (Aquela que as pessoas vitimas de um crime pesado, como sequestro, passam a sentir afeto pelo criminoso), no caso da síndrome, é interessante ver como ela é abordada no filme, e principalmente, como a personagem a sente, aqui os problemas mentais, disfarçados  através do sarcasmo são usados como motor da historia. (Lembrando que não sou psicólogo, então minha analise nesse ponto é de um leigo que é curioso).

Verhoeven acerta, em tudo, na forma de contar a história, no desenvolvimento da trama, nos personagens e claro, naquilo que o deixou famoso, no suspense e ação. A ação aqui é muito mais psicológica, porém o diretor se deu bem com esse tipo, o filme flui facilmente e consegue ser orgânico. Esperamos que esse Paul Verhoeven remodelado continue assim, como é bom ver um filme de suspense que foge dos padrões e que busca passar uma mensagem e uma reflexão usando linguagem e forma diferentes para contar uma história que já foi abordada em vários filmes. Que tenhamos mais obras desse tipo.


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