7.11.16

Crítica: Era o Hotel Cambridge

Imagem do Portal UOL


No decorrer da história, apesar de seus vários acontecimentos marcantes, todos eles, ou a grande maioria deles, têm algo em comum que é a luta de classes. Esta luta de classes sempre busca igualdade e representatividade, mas, com o passar dos anos, e com o avanço da mídia, na maioria das vezes as pessoas não sabem quando esta luta de classes acontece, ou onde acontece, mas ela sempre está presente. Isso é justamente o que o filme “Era o Hotel Cambridge” mostra em suas quase duas horas de projeção.

O filme conta a historia dos moradores da ocupação Cambridge localizada no centro da cidade de São Paulo, que abriga várias pessoas, em um prédio de quinze andares. O edifício abriga todo o tipo de gente, de todo grupo étnico, de toda a localidade do Brasil e ainda refugiados vindos do Congo, de Israel e de outros países que se encontram - ou não - em guerra.




É aqui que reside o maior ponto positivo do filme, que é a imersão na vida dos moradores do prédio, o público passa a fazer parte daquele lugar, seguindo os residentes através da câmera, e acompanhando todo o cotidiano do lugar por todos os seus andares. E o que vemos? Vemos pessoas que protestam contra um sistema usando a cultura, vemos peças de teatro, músicas, poemas, desfiles, gravação de um vlog e principalmente, vemos empatia, todo mundo se ajuda e principalmente, todo mundo ensina algo ao próximo, e é justamente isso que é a vida, cada pessoa, independente de por quanto tempo ela permanece em nossas vidas, ela deixa uma marca, algo que vai ficar e que sempre iremos lembrar, ali, na ocupação, vemos gente deixando suas marcas em gente, que poderia ser qualquer um.

E, já que poderia ser qualquer um, o que dizer de uma frase de um dos refugiados, Hassan, que me chamou muito a atenção, ele diz que todos nós, estrangeiros ou brasileiros, somos refugiados, é exatamente isso, nós somos refugiados em uma sociedade hipócrita que diz querer mudar, mas que não aceita o diferente, somos refugiados por conta de um sistema que não dá educação e cultura para buscarmos saídas e somos refugiados nas nossas próprias vidas, que unidas com esses aspectos, nos torna estrangeiros dentro de nosso próprio país e principalmente estrangeiros dentro de nos mesmos.

Para falar das partes técnicas, enquanto assistia ao filme e me encontrava imerso na vida daquelas pessoas, me lembrei de um documentário de Eduardo Coutinho chamado Edifício Master, que trata justamente de moradores em um prédio no estado do Rio de Janeiro. As temáticas dos filmes são diferentes, mas nos dois, vemos como as pessoas, que são completamente diferentes tem que viver lado a lado todo dia, o lado antropológico dos dois prédios é muito semelhante nisso, ninguém é exatamente igual, todos tem aspectos em comum, e são as diferenças que fazem todos conviverem e se tornarem iguais.

Isso fica evidente em “Era o Hotel Cambridge”, muito por conta de sua montagem, com seus planos fechados focando nas pessoas, conseguimos criar uma empatia não apenas com a historia de cada um, mas também, em relação ao físico, todos nós, somos muito parecidos, e nos planos mais abertos vemos onde a ação se passa, e nas cenas onde apenas são mostrados os lugares, como a cena da escada, ou as cenas de contagem regressiva nos fazem conhecer o lugar como se morássemos lá, além de que, como foi filmado, tanto as cenas que mostram onde ocorre a ação, como as cenas que mostram e contam a vida das pessoas, me lembrou muito o documentário “Os Palhaços” do Fellini.

Se não fosse este filme, provavelmente grande parte das pessoas não conheceria a historia dos moradores da Ocupação Cambridge, pelo simples motivo de que a mídia não mostra isso, logo, esta obra se torna importante não apenas pela arte, mas por ser didática, e por mostrar o lado de dentro de uma ocupação e principalmente, por expor algo que todo mundo sabe, mas que parecem não saber: todo mundo é igual.

Sendo assim, “Era o Hotel Cambridge” além de ser um filme incrível, que conta a história de forma soberba, é uma obra de arte didática, aprendemos mais sobre como funciona uma ocupação, o porquê de ela ocorrer e ainda vemos um lado que não será mostrado em qualquer lugar. É uma obra necessária, de uma diretora, Eliane Caffé, que com certeza, além de saber muito bem como contar uma historia, não o fez sozinha, as pessoas ali, os personagens, a ajudaram bastante. Que filme necessário nos dias tão conturbados de hoje.


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