23.10.17

Crítica: “Zama” e as relações de poder

Zama
Imagem: Bananeira Filmes

“Tudo é sobre sexo, menos sexo, sexo é sobre poder”, essa frase de Francis Underwood, personagem de Kevin Spacey na série House of Cards, da Netflix, pode ser usada para definir como se dão as relações de poder na sociedade.

Claro, muitas coisas podem ser acrescentadas nesse contexto, como por exemplo, a corrupção e a vontade de algo melhor. Lucrécia Martel, após nove anos sem lançar um filme, explora em “Zama” essas relações de poder e como elas acontecem sempre da mesma forma, mesmo no período colonial.




Don Diego de Zama (interpretado por Daniel Gimenez Cacho) é um corregedor do governo espanhol da época colonial. Morando em uma pequena cidade da Argentina, ele deseja ser transferido, e, para isso, aceita qualquer tarefa que o governador da cidade lhe de, para conseguir a tão desejada carta de transferência assinada pelo rei.

É bacana como o filme usa dos aspectos sonoros para ambientar e prender seu público, de forma a sentirmos simpatia por um personagem que não é simpático, não por falta de carisma e sim pelas atitudes. Até porque, ele discrimina índios, mesmo tendo engravidado uma, ele é casado e deseja outras mulheres, e, claro, é um homem corrupto, fazendo de tudo para subir de cargo.

Assim, os sons se fazem essenciais no entendimento da narrativa, porque mostra o que Zama sente naquele momento, se ele fica surpreso com algo, a música aumenta de forma que até assusta quem assiste, já nos casos nos quais ele fica chocado, o som que estava sendo escutado naquela cena se repete, seja esse uma música (quando ele e um outro homem brigam) ou quando ele descobre, por uma fala de outro personagem, que algo não esperado aconteceu (o momento o qual Luciana fala para ele a primeira negação de sua transferência, ele escuta a fala dela de forma embargada e repetida).

Visualmente falando, a composição dos ambientes também se dá pela fotografia, as cenas rodadas a noite são muito escuras, o que dá uma cara real para o momento, levando em consideração a não invenção da eletricidade naquela época e, nos planos mais claros, a luz ofusca, de tão clara que é, graças ao clima tropical do lugar onde o filme se passa.

Porém, apenas desses pontos positivos, o filme se alonga mais do que era necessário, há cenas (a sequência onde Diego fica doente, por exemplo) altamente dispensáveis, alguns planos duram mais do que o comum para uma temática como a abordada e devido a isso, a projeção se torna arrastada e cansativa, isso prejudica fortemente o andamento do filme.

Ora, os primeiros 40 minutos são perfeitos porque mostram como o desejo sexual, ligado a corrupção e a ambição podem cegar uma pessoa, os próximos 40 minutos não acrescentam em nada, pois não mostram nem a solidão do personagem e nem as relações de poder as quais o filme vinha tratando, na última meia hora a projeção volta a ganhar folego e a tratar daquilo abordado no seu primeiro ato.


Portanto, Lucrécia Martel fez um bom retorno, mas poderia ter sido melhor, ela é inteligente e elegante em seus filmes (basta assistir “A Mulher sem Cabeça” para confirmar), assim, sabendo do que ela é capaz, “Zama” poderia ter sido melhor, apesar de seus (muitos) bons momentos. 

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