25.10.17

Crítica: Drama e documentário unidos: “Gabriel e a Montanha”

Gabriel e a Montanha
Imagem: Pagu Pictures

Na sociedade, apesar do egoísmo crescente, há pessoas mantenedoras da empatia, da preocupação com o próximo. Muitas delas têm uma condição de vida privilegiada e acabam gastando dinheiro para melhorar o mundo.

Gabriel Buchmann era uma dessas pessoas. Economista, decidiu viajar o mundo, mais especificamente o continente asiático e o africano, com o fim de viver como um não - turista e usar o aprendido em cada pais visitado para um estudo sobre políticas públicas sociais que serviria para ajudar os pobres. No fim da viagem, ele decidiu como último destino o Malawi, e depois de subir uma montanha, dispensar o guia e se perder no meio do caminho de volta, foi encontrado morto alguns dias depois.




A história de “Gabriel e a Montanha” é a dos últimos 70 dias da vida de Gabriel. Dirigido por Fellipe Barbosa (do brilhante Casa Grande), amigo de infância de Buchmann, o filme assume uma tarefa complicada: contar uma história assumindo um ponto de vista ficcional (pois o casal principal é interpretado por um ator e uma atriz) ao mesmo tempo em que usa o documentário, pois a projeção foi filmada em todos os países africanos por onde o economista passou e conta com depoimentos das pessoas que ele conheceu.

Cumprindo a tarefa relatada no parágrafo acima com sucesso, o filme consegue não idealizar o personagem principal – algo muito comum em filmes biográficos – e por ser dirigido por alguém que o conheceu, esse aspecto é um ponto positivo grande. Vemos Gabriel com a personalidade complexa comum das pessoas, ele busca o tempo inteiro viver como um nativo, fazendo amizade e conquistando todos de maneira fácil, dormindo no chão da casa deles, dividindo a cama pouco tempo depois de os conhecer e ajudando as comunidades como pode. Também vemos como ele poderia ser ruim, as cenas com a namorada deixam isso bem claro, em determinados momentos ele foi sexista, machista e “unilateral” (a palavra usada pela moça), assim, além de multifacetar o personagem, o diretor expõe a cumplicidade do casal, nenhum dos dois é perfeito, mas ambos tentam corrigir os erros.

Essa complexidade é possível graças à atuação de João Pedro Zappa (Gabriel) e Caroline Abras (Cristina), ambos são inteligentes para evocar as personalidades de seus papeis e mais do que isso, eles buscam explorar o outro personagem, fazer com que seus pensamentos sejam revelados pelo outro e nunca apenas por si mesmo.

Os depoimentos de cada pessoa que conheceu Gabriel são encaixados devido a uma decisão inteligente de Barbosa, ao invés de colocar cada personagem em frente a câmera para falar, ele primeiro apresenta o personagem dentro do drama (ou seja, conversando com Gabriel ou com Cristina) para depois, com o som em off, expor aquilo que foi dito sobre o rapaz pela pessoa apresentada anteriormente. Esse tipo de decisão, alternada com as cenas, levam a comoção, ao sentimento de empatia pelas pessoas que o conheceram e que sentiram a dor de sua morte.

Logo, quando Cristina fala de sua despedida de Gabriel, é fácil se identificar com a dor sentida pela mulher, quando um dos guias fala como o jovem o ajudou, é simples perceber como ele marcou a vida das pessoas e com o filme introduzindo as fotografias reais que Buchmann tirou em sua viagem, é perceptível como ele levava o estudo a sério e como a viagem era importante para ele.

Portanto, “Gabriel e a Montanha” é um filme sobre a vida, sobre as sensações que esta traz e sobre as montanhas que cada um de nós sobe todo dia em busca de algo melhor, para gente ou para mundo, e nesse caso, não faz a menor diferença. 

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