4.12.17

Crítica: Bingo – O Rei das Manhãs

Bingo - O Rei das Manhãs
Imagem: Luiz Maximiliano/Divulgação
Contar histórias baseadas em fatos reais nunca é uma tarefa fácil, por uma série de motivos, porém, os principais são aqueles considerados óbvios: a estrutura episódica que o roteiro pode assumir, engrandecer uma personalidade mesmo essa tendo atitudes duvidosas e os clichês presentes na obra devido a adaptação.

“Bingo – O Rei das Manhãs” felizmente não comete esses erros, porém há certas coisas ali que não encaixam, mas para cada uma dessas há uma cena ou um detalhe compensativo, assim o diretor Daniel Rezende (um dos melhores montadores do mundo), faz uma estreia muito boa na direção.



Baseado na história de Arlindo Barreto, o Bozo da televisão brasileira nos anos 80, Augusto Mendes é o palhaço Bingo (o nome original do palhaço não foi utilizado devido a direitos autorais). Após passar no teste para interpretar o personagem, é exposto como o não reconhecimento devido ao sigilo de sua identidade, acarretou em diversos acontecimentos.

A obra conta com técnicas quase perfeitas, a montagem, a caracterização e as atuações do elenco servem para criar um universo nostálgico sem exageros, contribuindo para o foco se manter na história de Bingo e não em recriar uma época.

Na montagem (como é esperado vindo do montador de “Cidade de Deus” e “Diários de Motocicleta”) vemos como a transferência entre uma cena e outra pode ser realizada de maneira fluida, em vários momentos, a cena muda a partir de um movimento de câmera, de um objeto em comum aparecendo em dois locais, ou por uma passagem de tempo.

Porém, nessas passagens de tempo é onde está o maior erro do filme, pois, aparentemente, anos se passaram, isso fica claro pelo o que acontece: o pico na audiência, as mudanças ocorridas no programa, os prêmios, a melhora no poder aquisitivo da família Mendes, tudo isso demanda tempo, nada acontece de uma hora para a outra. Porém, o filho de Augusto, Gabriel (interpretado por Cauã Martins) não cresce, e mesmo na cena do aniversário dele, indicando que passou um ano, a obra logo a seguir, deixa claro que tudo aquilo não aconteceu em um ano.

Nas atuações, contamos com um elenco bem formado e competente, Vladimir Brichta como Bingo consegue expor de forma excelente como o homem foi de atencioso com o filho, se importar com a família, responsável no set e fora dele, para o total oposto disso, negligente de todas as formas possíveis, o exagero nas drogas e no sexo levando a um abandono com os deveres no estúdio e na família. Leandra Leal, como a diretora do programa, criou uma persona rígida, dura, integra, em um meio dominado por homens, ela mostra o que teve que enfrentar para ter sucesso.

Por se passar nos anos 80 a projeção demanda um ar nostálgico, porém, não há o exagero nisso. A trilha sonora musical é composta por poucas canções conhecidas, não batendo na tecla de nos identificarmos logo de cara com algo ainda atual, os figurinos são bem feitos, mostrando como as roupas mudam de ano em ano e claro, a ambientação dos locais condiz com a década e além disso, a imagem levemente granulada contribui para a imersão do público no momento oitentista.

Logo, “Bingo – O Rei das Manhãs” é um ótimo filme de estreia de Daniel Rezende na direção, mostrando como um bom profissional, com domínio da técnica em um aspecto na arte, pode se arriscar em outro segmento e realizar um bom trabalho, assim como seu personagem principal. 

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