11.12.17

Crítica: “Loveless”

Loveless
Imagem: Divulgação
Por volta de 25 minutos de projeção, um dos personagens de “Loveless” (Palavra que significa “Desamor” ou “Falta de Amor”) diz “Desamor, não se pode viver com desamor”. De fato, ele tem razão, viver com desamor é algo sério, impossível de ser feito, e em casos mais sérios, leva a consequências extremas.

Novo filme de Andrei Zyvagintsev, diretor do ótimo “Leviatã” de 2014, traz uma história totalmente diferente deste (Porém, se mantendo no drama familiar). Zhenya e Boris estão se separando e se encontram bem adiantados no processo, porém, nenhum dos dois deseja adquirir a guarda de seu filho, Alyosha, de 12 anos, e concordam em coloca-lo em um internato. O menino escuta a conversa na qual os pais chegam a essa decisão, e no dia seguinte, desaparece, portanto, a projeção retrata a procura dos pais pelo garoto.



Muitos dos planos mais bonitos de 2017 estão em “Loveless”, não apenas devido a inerente plasticidade, mas principalmente pelo simbolismo que traz consigo. As arvores secas e sem nenhuma planta ou fruto, não servem para mostrar o estado da vegetação do local e sim para expor um estado de espirito do casal principal, que são secos como os galhos, frios como o clima do país e não servem para ser pais, ou seja, nutrir frutos. Além disso, há várias cenas que merecem destaque, como aquela onde Zhenya está correndo na esteira – por mais que se mexa, ela nunca sai do lugar, assim como é na sua vida – ou, a cena onde Boris almoça e vemos o automatismo do homem ao agir sem se importar com ninguém.

Automatismo esse presente na inteligência do diretor ao explorar a tecnologia, ora, Zhenya mal dá atenção – e quando o faz, é com grosseria - para o filho porque prefere ficar mexendo no celular, a mulher se preocupa com sua imagem, em como registrar a vida perfeita desejada e não obtida por ela, por isso as fotos dos pratos que come no restaurante, a preocupação com a estética e a falsidade presente em seu sorriso, a vida real pode ser um caos, mas, nas redes sociais tudo vai ser perfeito, tudo vai ficar bem.

Resumindo, ela é uma mulher que se autodestrói devido a sua busca incessante pela imagem perfeita, assim como Boris, pois ele leva mais a sério o emprego do que o filho e não esquecendo dos relacionamentos amorosos nutridos pelos dois, Zhenya tem um namorado e Boris tem uma namorada (que está grávida), logo, não é apenas o casal não sentindo amor pelo filho, são dois adultos que se importam mais com suas vidas pessoais do que com o bem estar de seu herdeiro.

Pensando nisso tudo e se colocando no lugar de Alyosha, a pergunta feita pelo filme é “Ora, porque não desaparecer?”, e mesmo após esse sumiço, os pais dele ainda se importam mais com suas próprias vidas, isso fica claro na cena onde o investigador quer saber mais sobre a vida do garoto, para realizar uma busca detalhada, ele pergunta se o garoto tem amigos, a mãe responde que acha que sim, ele pergunta sobre os gostos dele e o pai chama o filho de pirralho, ou seja, eles estão procurando o menino para não ter problemas futuros, no caso dele relacionado ao emprego (no local onde ele trabalha, os funcionários tem que ter família) e, no caso dela, para colocar o menino no internato e finalmente esquece-lo.

Assim, a cena onde o garoto aparece chorando enquanto escuta aquilo que pode se tornar seu futuro é comovente por dois motivos: o choro convulsivo do menino, uma criança abandonada dentro da própria casa e o fato de ele esconder esse choro, ficando isolado no canto do cômodo, não há decisão mais adulta do que esse silencio.

Logo, “Loveless” é um filme que expõe verdadeiramente a crueldade do ser humano, e ao contrário daquilo pensado por muitos, a maldade e a rudeza, podem ser sim sem nenhum motivo, pode ser deliberado, por prazer, o desamor do titulo do filme, pode ser com qualquer um, inclusive com uma criança. 

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