18.2.18

Crítica: Uma Mulher Fantástica

Uma Mulher Fantástica
Imagem: IMOVISION / Berlinale / Divulgação



















Está cada vez mais difícil, hoje em dia, as pessoas serem quem elas realmente são, e para os membros da comunidade LGBT isso é algo muito mais frequente. Logo, ao ver a luta de todos eles por terem uma vida comum e seus direitos cumpridos, assistir filmes como “A Garota Dinamarquesa” e “Clube de Compras Dallas” onde mulheres trans são representadas por homens, é algo triste e denotativo da falta de representatividade da indústria.

Não que as atuações dos atores em questão sejam ruins – inclusive, muito pelo contrário – mas, eles conseguem qualquer papel, seja por talento, seja por vontade ou por convites dos estúdios, diretores e afins, porém, um homem ou uma mulher trans, luta o dobro para conseguir metade das oportunidades.

Logo, ao ver um filme como “Uma Mulher Fantástica”, candidato ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro representando o Chile, que traz como protagonista uma mulher trans, além de ser emocionante por si só, é inclusivo, pois mostra que sim, há espaço na indústria e gente interessada em empregar pessoas de talento sem se importar com sua identidade de gênero, todos são iguais.


Dirigido por Sebastian Lelio, a história é sobre Marina Vidal (Daniela Vega), mulher trans que mora com o seu namorado Orlando. Após passar mal durante a noite, o homem morre e Marina se vê em pleno contato com a família homofóbica do companheiro, que além de tentar fazer ela ser quem não é, a recrimina de várias formas possíveis.

A obra aposta na sensibilidade e na empatia do espectador para o seu pleno funcionamento, e essa é decisão correta, pois ao deixar o público perceber como a luta de Marina é séria, a projeção passa rápido, ficando ritmada e bonita visualmente, sem forçar comentários em relação a beleza das cenas ou a dor de Marina.

E sim, as cenas são muito bonitas no seu aspecto visual, a obra usa cores fortes nos quadros, deixando o filme colorido, como por exemplo o vermelho e o roxo na cena da balada, ou o azul na dança de Orlando e Marina, o verde dominante na sala de estar do apartamento e os tons das roupas da mulher, variando entre o azul (e nesse caso, o jeans domina), o rosa e o amarelo.

Nos quadros, Marina está posicionada na maioria das vezes no centro deles, para comprovar – não que tenha necessidade – o protagonismo da mulher perante a todas as situações pelas quais ela passa e com isso, coloca os antagonistas (a ex-mulher de Orlando e o filho) do lado esquerdo da tela, mostrando a fraqueza deles como personagens e nas suas ideologias.

E é esse o foco real da obra, mostrar como as pessoas podem ser mesquinhas, fracas e ofender de todas as formas e expor como pelo outro lado, Marina é forte e nunca se deixa abalar, mesmo quando tentam proibi-la de ir ao velório, mesmo quando a chamam pelo nome de batismo (portanto o nome masculino) e principalmente, quando as ofensas chegam a níveis extremos.

Daniela Vega (Marina) é brilhante na construção da personagem, pois consegue passar a dor constante mesmo em momentos rotineiros, como por exemplo, o seu trabalho. Mas essa dor é transmitida ao público de maneiras diferentes, sempre, pode ser por um olhar que muda brevemente na medida que os fatos acontecem, pode ser pela insistência em utilizar uma peça de roupa, ou quando, ela parece rendida, para logo em seguida, protestar com o seu tom de voz sempre calmo, uma fala sempre baixa.

A fala é baixa, mas o sentimento é alto, grita, explode dentro dela como nenhuma outra coisa é capaz de fazer, e é esse sentimento que domina “Uma Mulher Fantástica” e faz a obra ser fantástica, assim como sua protagonista, uma das melhores atuações dos últimos tempos. 

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