22.2.18

Crítica: Trama Fantasma

Imagem: Universal Pictures do Brasil / Focus Features / Divulgação

Com a multiplicidade de gêneros existentes no cinema, há uma infinita variedade de assuntos a serem explorados, porém, poucos realizadores conseguem bons trabalhos em todos os estilos de filmes. Basicamente, quem costuma fazer comédia tem dificuldade em obras de drama (vide Woody Allen), quem está acostumado com terror, oscila em projeções de cunho histórico.

Mesmo grandes diretores e diretoras, como Bergman, Truffaut, Agnes Varda, tem essas dificuldades mas, alguns, como Paul Thomas Anderson, conseguem oscilar entre gêneros, criando trabalhos memoráveis. “Boogie Nights” é totalmente diferente de “Magnólia”, “Sangue Negro” é diferente de “Vicio Inerente”, “O Mestre” mesmo com o cunho histórico é o oposto de “Trama Fantasma”.


Estrelado por Daniel Day-Lewis (também o ator principal em “Sangue Negro”), naquele que é possivelmente seu último filme, “Trama Fantasma” conta a história de Reynolds Woodcock, um estilista de alta costura. Ele usa como inspiração mulheres e principalmente suas modelos, uma delas é Alma (interpretada por Vicky Krieps), figura forte e inteligente, os dois passam a ter um relacionamento amoroso.

A ousadia está presente em toda a obra, principalmente em sua estrutura, pois temos duas horas e dez de projeção sendo bem divididas, na primeira hora vemos como Woodcock é altamente metódico, seja no que diz respeito a sua rotina, como os cafés da manhã em absoluto silencio e as outras refeições sendo comandadas por ele até na sua produção, o homem controla até a quantidade de gordura ou manteiga que vai nos cogumelos.

Na segunda hora, o titulo do filme vai se justificando aos poucos, ao repararmos como existem vários fantasmas na vida de Woodcock, muitos desses foram criados pelo próprio, a mãe dele é um exemplo, essa é mantida na sua rotina devido a saudade sentida por ele, outro caso é a irmã deste, representada por Lesley Manville, ele a trata como uma figura facilmente controlável, porém, essa figura não existe, é um fantasma de sua personalidade dominante, a irmã é uma mulher forte e segura de si.

Assim como Alma (isso explica o porque da irmã de Woodcock gostar da mulher), prestando atenção, Alma é muito mais dominante do que Woodcock, porém esse processo de comando vai se dando de maneira gradual, às vezes é perceptível como ela passa a mandar em tudo, tanto na vida pessoal do estilista (mudando sua rotina) quanto na profissional, onde ela altera o jeito de trabalhar do profissional da moda.

Para isso é essencial boas atuações, como sempre, Paul Thomas Anderson consegue isso de seu elenco. Daniel Day-Lewis está tradicionalmente ótimo, com sua voz fina, remetendo a outros profissionais influentes na moda e na arte, nos quais provavelmente PTA se baseou para a criação do personagem. Day-Lewis também presenteia o público com leves mudanças físicas, como o jeito de andar devagar, aproveitando cada passo e a postura levemente encurvada, apenas ficando ereto quando trabalha, ou seja, ele é mais seguro no trabalho do que na vida pessoal. Krieps passa altivez como Alma, através de uma falsa sensação de insegurança, exposta pela sua voz baixa, pelo olhar inquieto e pela mudança na personalidade, esta construída com o passar do tempo.

Os movimentos de câmera dão destaque as roupas feitas pelo personagem principal da projeção, são recorrentes os ângulos nos quais se enquadra algo (ou alguém) de baixo para cima, utilizados para destacar os cortes inferiores dos vestidos, assim como os de cima para baixo são usados de maneira a expor o busto e as mangas. Além disso, há o uso das panorâmicas, mostrando como se dá o trabalho das várias costureiras, a possivelmente cena mais bonita do filme serve de exemplo, uma panorâmica destacando o vestido de casamento de uma princesa sendo feito, com foco na irmã de Woodcock, que no momento estava comandando o processo.

Mais uma vez, Paul Thomas Anderson presenteia o público com uma obra competente, rica em diversos aspectos e ousada de várias maneiras possíveis, “Trama Fantasma” é um filme perfeito, sem erros e não dá nenhum ponto sem nó, se é que me entendem! 

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