15.4.18

Crítica: “O Dia Depois”

O Dia Depois
Imagem: Pandora Filmes / Divulgação
Vivemos em uma era de relacionamentos baseados na desconfiança, onde, independente do grau da intimidade, muitas vezes o dominante não é o amor ou a amizade, mas a cautela, principalmente aquela gerada pela falta de confiança, nos levando a não acreditar nas pessoas ou nos sentimentos demonstrados por elas.

Hong Sang-Soo, dono de um cinema moderno e que cresce cada vez mais devido a inteligência do diretor ao usar atualidades, consegue passar uma espécie de resumo dessa era desconfiada no seu novo filme, o terceiro lançado em festivais em um ano (Sim, isso mesmo), “O Dia Depois”.


Bongwan (interpretado por Hae-Hyo Kwon) é um dono de uma pequena editora de livros. Mantendo uma relação extraconjugal com uma funcionária e após esta terminar o relacionamento, ele contrata uma substituta chamada Areum (representada pela ótima atriz Kim Min-Hee). Após encontrar um bilhete escrito pelo marido para a amante, a esposa vai até a editora e confronta Areum, porém acaba se confundindo e pensando que a nova contratada é a amante, isso gera vários problemas.

Sang-Soo consegue expor vários sentimentos, principalmente a desconfiança, através da fotografia e da montagem, sempre aspectos inventivos na filmografia do diretor, porém nessa projeção, esses segmentos assumem uma nova abordagem, principalmente devido ao fato de ser uma história sobre sensações e problemáticas, ação e reação e não usar a tradicional estrutura de "começo – meio – fim".

Rodado em preto e branco, a obra usa essa escolha de cor para expor como nós vivemos em uma sociedade que é exatamente assim, sem cor, sem sensação, onde temos que ser frios, imparciais, duros, para conseguir sucesso. A projeção leva o espectador a imaginar cores nas cenas devido a dois motivos, o primeiro é que o público se identifica com a frieza da cor, logo percebendo que muitas das coisas que acreditamos serem reais, não são, como fica claro em um dos primeiros diálogos entre Areum e Bongwan, e o segundo é que é possível imaginar cores nas cenas graças aos diálogos bem escritos e sempre com nomes de tons em suas falas, e esses nomes servem para descrever algo que está sendo sentido pela personagem que profere a frase, como, por exemplo, Areum dizendo “meu rosto fica vermelho quando eu bebo”.

Na montagem, vemos como flashbacks e o presente podem ser unidos como se fossem um só, não há cortes claros definindo o que é passado e o que é atual, e isso não afeta o entendimento da obra porque as cenas se encaixam com perfeição, levando o público a ligar os pontos e entender em qual tempo se passa as cenas com facilidade, além de expor como a desconfiança nos relacionamentos, sejam quais forem, se fez presente de forma gradual por um longo período de tempo. 

Logo, “O Dia Depois” é um filme belíssimo, principalmente por ter como assunto principal o agora, o atual, a desconfiança que domina nossas rotinas e que, infelizmente, se torna cada vez mais dominante e presente. 

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