23.10.18

Crítica: A Casa que Jack construiu

A Casa que Jack construiu
Imagem: CALIFORNIA FILMES / DIVULGAÇÃO
Se tem algo que Lars Von Trier não é como diretor, é acessível. Seus filmes não são nem um pouco fáceis, nem mesmo aqueles que são mais leves, como “Melancolia” (2011), são filmes que não divertem, pelo contrário, a sensação que fica quando acaba uma obra de Trier, é ruim.

Porque o diretor explora o que tem de pior no humano, na maioria das vezes, seu público – assim como toda a sociedade – fica chocado porque não quer acreditar que é aquilo que está vendo, mas, infelizmente, nós somos o que Trier mostra em seus filmes.
Partindo dessa premissa, “A Casa que Jack Construiu” é um filme que mostra como é ser humano e o que nós somos de fato de forma avassaladora, todos nós sentimos raiva, todos nós temos vontade de extravasar esse sentimento, mas, nem todos nós somos assassinos como Jack, personagem de Matt Dillon. Trier, em quase três horas de projeção, faz a gente acreditar que somos aquilo ou até mesmo pior.

Como dito, Jack é um assassino, ele mata pessoas – principalmente mulheres – para expor a raiva que tem do mundo e da sociedade. Escutamos sua história ser contada a partir de 5 “incidentes” (como ele chama os crimes) para Virgílio (Bruno Ganz, brilhante), enquanto vemos o que é relatado acontecendo na tela.

Todo o filme é metalinguístico, não apenas falando de cinema, mas falando do cinema do próprio Trier e de outros tipos de arte que influenciaram (eu acho) o diretor ao longo de sua carreira. Percebemos isso por vários pontos, com um roteiro bem escrito e cenas chocantes.

O roteiro é inteligente ao colocar essas formas de arte no filme de forma natural. Jack é um personagem que remete ao grotesco e ao gótico, seja por sua crueldade ou por seus gostos pessoais, como, por exemplo, adorar a arquitetura gótica e tentar construir sua casa em cima deste estilo, ou pelos cortes secos nos quais Trier insere quadros da arte grotesca, enquanto Jack conta a história principal do filme.

Escrito pelo próprio diretor, a obra constrói diversas metáforas no primeiro e segundo ato (e as desconstrói no terceiro), usando a arte, ao longo da projeção para estabelecer a tensão no público. A literatura é abordada ao longo do relato de Jack, sempre vemos os fatos pelo ponto de vista dele, por isso as vítimas são tão ingênuas, sejam homens ou mulheres, porque Jack é um personagem egoísta, prepotente, que acha que é um tigre e que a sociedade não passa de um aglomerado de cordeiros prontos para morrerem nas mãos dele.

A câmera na mão e as cenas com poucos cortes ajudam na construção dessa tensão, pois potencializa o choque que as pessoas vão ter enquanto assistem (este causado não apenas pelas cenas violentas), pois inevitavelmente vão se identificar com o personagem em algum dos aspectos psicológicos. “Ah, mas ele é sádico”, “Nossa, ele é um psicopata, não consegue controlar a raiva”, sim, e a partir do momento que nós falamos frase simples, mas que envolvem a morte ou o ato de matar, nós, como sociedade, somos tão sádicos quanto Jack.

E Trier faz o espectador perceber isso através de diálogos muito bem construídos entre Jack e suas vítimas, construindo a metáfora mais importante do filme, que somos uma sociedade sem empatia, criamos ícones em várias áreas que são más pessoas, não porque queremos más pessoas, mas porque somos pessoas ruins, mesmo que tentemos fazer algo bom.

Talvez seja por isso que Jack gosta tanto de arte grotesca e gótica, pois essas, para ele, expõe o que há de cru no ser humano, fazendo o protagonista construir sua casa não fisicamente, não por procurar um lugar para morar de fato, o que seria o sentido lógico de casa, mas querendo dizer que a casa dele são as maldades que ele comete com as pessoas, criando seu próprio inferno.

Não a toa, o nome da pessoa para a qual ele se confessa é Virgílio, um filosofo conhecido por sua “Eneida”, obra que fala sobre o nascimento de Roma, que viria a ser incendiada pelos bárbaros, mas, principalmente, porque Virgílio é o guia de Dante durante sua passagem pelo inferno em “A Divina Comédia”. Ou seja, Jack escolheu ele como acompanhante porque este homem já tem experiencia no assunto, ele sabe que a sociedade é ruim como um todo e que todos nós iremos tentar atravessar a mesma ponte que Jack tenta atravessar no terceiro ato.

A personalidade de Jack também explica a escolha de Trier nas cenas em que Jack fala sobre si mesmo, de colocá-lo em um beco, com placas nas quais há palavras que são as características do personagem, exatamente igual ao clipe de “Subterranean Homesick Blues”, de Bob Dylan, além de que, na letra desta música há os dizeres “Wants to get it paid off, Look out kid, It's somethin' you did, God knows when, But you're doin' it again” (Quer pagar para se livrar, olhe garoto, é algo que você fez, deus sabe como, mas, você está fazendo de novo).

Jack faz exatamente isso, ele quer pagar para se livrar, tentando de fato construir a casa dos seus sonhos, porém, ele não consegue e acaba fazendo tudo de novo, sendo o tigre do poema de Blake que ele cita, o personagem é viciado em matar (A fala "Você cita Blake como o Diabo cita a Bíblia", de Virgílio, no filme, deixa isso claro), como um alcoólatra é viciado em álcool, assim como ele é viciado em fama, novamente, Trier usa a música como a arte para expor esse ponto, tocando “Fame” de David Bowie, justamente após ele ser descoberto e ficar conhecido pelas pessoas.

Mas, se a jornada de Jack é a construção de sua casa sustentada por crimes e sua ida para o inferno pessoal (reparem como esse inferno tem os arcos no estilo gótico que ele tanto gosta), ele cria esse lugar por se alto infligir dor, pois, como o próprio diz para uma de suas vítimas, “o silencio ensurdecedor que você escuta é a sociedade dizendo que não vai te ajudar”, ou seja, ele causa dor a ele mesmo e aos outros, por achar que assim, vai salvar a sociedade dela mesma.

Isso é exatamente o que Trier quer fazer com seus filmes, mostrar coisas chocantes a ponto de colocar as pessoas em estado de reflexão sobre si mesmas e suas atitudes, logo é genial, na discussão que Jack e Virgílio tem sobre dor e sobre as pessoas buscarem dor, o diretor colocar trechos de seus próprios filmes para ilustrar a conversa dos personagens.

Ou seja, Trier chama a si próprio de assassino, mas também chama toda a sociedade de assassina, não “assassino” no sentido da palavra que todos nós conhecemos, mas, no aspecto de destruirmos nossos valores, nossa ética, nossos pensamentos, em prol de coisas banais e que apenas farão a gente perder o pouco tempo que temos.

Pensando nisso, pode ser que “A Casa que Jack construiu” seja uma espécie de resumo da obra de Trier, já que traz aspectos de alguns de seus filmes, principalmente daqueles que foram lançados nos anos 2000. Aqui, vemos a visceralidade de “Ninfomaníaca” (das duas partes, ambas de 2013), a depressão retratada em “Melancolia” (2011), a violência física de “Anticristo” (2009) e o aspecto social de “Dogville” (2003).

Toda essa síntese é fotografada seguindo a influência nos quadros impressionistas, cores fortes e na maioria, cenas claras, seguindo uma métrica visual constante, assim como foi feito em “Melancolia”. Isso pode ser percebido pelo vermelho da van de Jack, ou pelo contraste entre cores claras na sequência chocante do terceiro incidente, que se passa todo ao ar livre.

Por fim, após usar a literatura, a pintura, o cinema e a música, Trier usa o teatro para estabelecer a dinâmica entre Jack e Virgílio, o uso de câmera na mão, com os mais variados movimentos serve para, como dito acima, estabelecer a tensão e chocar, porém, também tem como objetivo não cortar o dialogo entre os dois personagens principais do filme, já que, no teatro, não tem como realizar esse tipo de edição no decorrer da peça.

Isso funciona exclusivamente pelas atuações tanto de Matt Dillon, quanto de Bruno Ganz, que constroem seus personagens com paciência, interpretando o que Trier quer dizer cada um de sua maneira e usando os diálogos para estabelecer a reflexão social e sobre a própria obra do realizador, como este deixou bem claro que é um dos objetivos principais do filme.

Ao falar de sua própria obra, com a duração certa - é impossível um filme de 1h30, ser o que é essa projeção é em quase 3 horas - usando a metalinguagem e as mais diversas formas de arte, “A Casa que Jack Construiu” é o filme mais complexo da carreira de Lars von Trier e talvez seja o que mais toca no fundo do consciente das pessoas, porque o diretor quer mostrar que existem as mais diversas formas de maldade e todos nós a praticamos, uns mais, outros menos, mas, ainda assim, ninguém é 100% bom.

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