27.10.18

Crítica: La Quietud

La Quietud
Imagem: DIVULGAÇÃO
Pablo Trapero ficou conhecido por filmes como “Leonera” (2008), “Abutre” (2010) e Elefante Branco” (2012), onde trata de temas variados, mas, em geral, mantendo um estilo de cinema que preza o feminino, as mulheres e suas histórias, com traços estilísticos bem fortes.

“La Quietud”, seu novo filme, mantem esse estilo, contando a história de três mulheres, as irmãs Mia (Martina Gusman) e Eugenia (Berenice Bejo) e a mãe destas Esmeralda (Graziela Borges). Após o pai delas sofrer um derrame, Eugenia, que mora em Paris, volta a Argentina para ficar com a família. Agora, as três mulheres estão reunidas e com isso o passado conturbado delas vem à tona, o que gera conflito familiar.

Este conflito familiar é desenvolvido através de um roteiro que foca nos diálogos, para contextualizar o público sobre o que está acontecendo, com os dois primeiros atos expondo as brigas das quais as três participam devido aos fatos de suas vidas. Eugenia é adorada pela mãe, Mia não é, a mãe tem posturas não ortodoxas a respeito de certas coisas, como o próprio marido e a relação das filhas com os homens, além de buscar cercear a liberdade de Mia.

A relação das filhas com os homens é algo que domina o filme durante quase toda a sua duração, já que o conflito familiar não surgiu apenas porque a mãe prefere uma filha, ao invés de amar as duas igualmente, mas também surgiu entre as irmãs devido aos homens que desejam, ou seja, o sexo é uma força motriz influente e Trapero mostra as relações através de closes e movimentos de câmera, evitando os cortes e abrindo os planos, para que o público possa de fato ver como a relação em questão influencia no conflito.

Mas, se tem algo que influencia igual, ou até mais que o sexo, é a semelhança física das irmãs, que Trapero potencializa através dos figurinos, as duas sempre usam roupas muito parecidas (em certos momentos, até são vistas com as mesmas peças, mas com cores diferentes), além do tom do cabelo e formato do rosto, como se os homens que desejassem uma delas, automaticamente desejassem a outra.

Porém, elas são duas mulheres completamente diferentes, o que as atuações de Bejo e Gusman deixam bem claro a cada momento, se Eugenia quer se ver cada vez mais livre da família, Mia sente a necessidade de estar perto desta, mas, é afastada pelo comportamento hostil de Esmeralda, por esta não amar a filha em questão.

Esmeralda é o ponto alto do terceiro ato, graças a atuação brilhante de Graziela Borges, que consegue passar a agressividade da mãe a outro patamar, graças a uma composição bem-feita pela atriz e por colocar uma certa dose de humor nas falas, uma escolha interessante, principalmente devido a temática da obra.

Mas, é nesse terceiro ato que o filme se perde em seu ritmo, indo de um conflito familiar bem estabelecido, para uma história que não condiz com tudo que foi proposto, se tornando confuso e até chato em certos momentos, com cenas desnecessárias e foco errôneo em personagens secundários, como, por exemplo, o advogado da família.

Assim, apesar de competente, o novo filme de Pablo Trapero não é tudo o que podia ser, pois o roteiro se perde justamente no momento em que deveria fechar os arcos conflitantes que construiu. A projeção se segura pelas atuações de um elenco feminino que sabe o que faz nos seus respectivos papeis.

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