27.10.18

Crítica: The Man who killed Don Quixote

The Man who Killed Don Quixote
Imagem: DIVULGAÇÃO
20 anos ou mais se passaram até que Terry Gilliam conseguisse terminar de gravar o filme de sua vida, “The Man who killed Don Quixote” (em português: O Homem que matou Don Quixote, mas, o filme ainda não tem título oficial no Brasil). A obra busca fazer uma releitura na época atual, da obra clássica da literatura, de autoria de Miguel de Cervantes. Dessa vez, a história é a de Toby (Adam Driver), um diretor cinematográfico e publicitário, que está realizando seu novo trabalho no local onde fez seu filme de conclusão da faculdade.

Por isso, ele passa a se lembrar dos momentos onde era mais jovem e do filme que fez sobre a obra literária em questão, e vai atrás das pessoas que participaram dele de alguma forma, Angélica (Joana Ribeiro) e um velho sapateiro que interpretou Don Quixote (Jonathan Pryce). Ela, casada com um magnata russo e o velho ainda pensa que é o personagem de fato, agindo e se comportando como ele, assim, ele confunde Toby com o escudeiro Sancho Pança.

Fica claro que a intenção de Gilliam é adaptar a transformação da realidade em fantasia, que é o motor do personagem na história literária, no filme, ou seja, fazer Toby não saber onde ele está, se no seu trabalho atual, no seu filme anterior ou no meio da loucura construída pelo sapateiro que pensa ser Quixote.

Mas, tudo o que o diretor e roteirista consegue é deixar seu filme confuso, criando metáforas que não terminam e difíceis de entender, potencializando os fatos e não deixando claro se vemos uma narrativa real ou uma história fantasiosa e nem o protagonista parece saber disso. Ou seja, o roteiro, que deve estar pronto há 20 anos e ter sido adaptado no meio do caminho até a filmagem, não estabelece os arcos necessários para desenvolver sua história e não deixa claro qual é a intenção do filme.

Pois, sabemos que tanto Toby, quanto Quixote, imaginam o passado, sentem saudades dele e potencializam os fatos, mas, não sabemos o motivo de eles fazerem isso, devido a altas doses de surrealismo que são inseridas no filme. Se, por um lado, o livro no qual a projeção é baseada, é um livro de certa maneira surrealista, por outro lado, a fantasia ser mantida e em nenhum momento a realidade fazer parte da fórmula fílmica (o personagem de Toby tenta, mas não consegue inserir a realidade necessária), faz a releitura se tornar chata e sem sentido.

Assim como as atuações de Adam Driver e Jonathan Pryce, dois atores bem-sucedidos e que gosto bastante, apostam no overacting (exagero nas expressões), para gerar o humor do filme. Em certas cenas isso funciona, principalmente as cenas iniciais, porém, depois de vermos piada atrás de piada por quase duas horas, podemos deduzir de onde virá a tentativa de gerar risada.

Mesmo assim, a obra tem pontos interessantes, ou ao menos tenta construir esses aspectos atraentes. É claro que a projeção quer falar de um filme enquanto outro filme é feito, assim como Fellini fez em “8 e meio” (1963), mas, por exagerar na dose, não consegue construir esse ponto. Os planos abertos e a claridade das cenas, querem influenciar o público a usar a sua imaginação para entender as metáforas que o filme gera, porém, o roteiro não as constrói bem o suficiente, para essa tática fotográfica funcionar.

Apesar de tudo isso, é bom ver que Terry Gilliam não desistiu do sonho de filmar essa obra difícil, que o trabalho da vida do diretor está terminado e que ele pode focar em outros projetos sem ter o “Fantasma” de Don Quixote o assombrando, uma pena que a tentativa tenha sido válida, mas a execução tenha sido falha.

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