15.10.18

Crítica: Legalize Já - Amizade nunca morre

Imagem: DIVULGAÇÃO / IMAGEM FILMES

“Vivemos em uma época de pobreza cultural”, Skunk, um dos criadores do Planet Hemp junto com Marcelo D2 e interpretado por Ícaro Silva em “Legalize Já - A amizade nunca morre”, resume não apenas aquele momento em que viveu, mas toda nossa época atual.

Dirigido por Johnny Araújo e Gustavo Bonafé, o filme conta a história do início da carreira da banda “Planet Hemp”, Skunk (Silva) grava e vende fitas de artistas famosos para pessoas e rádios, Marcelo, ainda sem o D2, interpretado por Renato Góes, é camelô no centro do Rio do Janeiro, com a namorada grávida e pressionado pelo pai para sair de casa.


A obra usa um roteiro bem escrito pelos diretores (com colaboração de D2 e Luiz Bolognesi), trilha sonora influente que traça toda a história musical dos dois rapazes e uma montagem efetiva, para estabelecer os arcos individuais dos dois personagens principais.

Essa montagem é quase toda paralela, ou seja, contando a história de Skunk e Marcelo ao mesmo tempo e estabelecendo ligações entre os caminhos percorridos pelos dois, com cortes bem encaixados, mantendo a fluidez através de aspectos em comum na sequência de planos, como algum objeto, música ou situação que seja comum aos dois.

A fotografia é tão comunicativa como essas passagens, já que, com exceção dos momentos de gravação musical ou de shows, onde o filme ganha cor, o tom predominante é o cinza, possivelmente para expor visualmente a pobreza cultural a que Skunk se refere. Graças a isso, a expressão dos personagens, de constante insatisfação nesses momentos cinzentos, ganha mais força.

Porém, essa força não vem apenas da fotografia, vem também da atuação dos atores, tanto Ícaro Silva, quanto Renato Góes, conseguem passar todas as multiplicidades dos personagens sem nenhuma dificuldade, Silva passa o medo que Skunk tem devido a sua doença, ao mesmo tempo em que transmite a raiva que sente do sistema, Góes, além da semelhança incrível com Marcelo D2, usa a insegurança do personagem e o cumprimento das obrigações, para usar a música como válvula de escape.

O roteiro ajuda nesse aprofundamento sentimental que os autores passam para a tela com maestria, muito bem escrito pelos diretores e com certeza eles aproveitaram bem as colaborações recebidas no meio do caminho, não há um ponto sem nó na projeção, seja nos dois arcos principais, ou nos secundários como o do pai de Marcelo (interpretado por Stepan Nercessian) ou a namorada deste, Sônia (interpretada por Marina Provenzzano), que tem suas histórias contadas em meio a todo o foco principal.

Foco esse que não é apenas o início da carreira musical do Planet Hemp, mas também uma reconstrução do Brasil de meados dos anos 90, onde a democracia vivia um momento de instabilidade. A época foi muito bem feita pelo design de produção, que usou o tom cinzento da fotografia para passar a agitação dos camelôs no centro do Rio de Janeiro, a apatia da loja de eletrodomésticos (reparem nos preços em cruzeiro e em sua diferença para a atual moeda) e sem esquecer, claro, das roupas, das matérias jornalísticas e da ambientação no Rio de Janeiro.

Porém, o destaque fica mesmo para a trilha sonora, que usa a influência que os rapazes tiveram de outros ritmos, para realizar uma transição entre os artistas que os fazem gostar de música, por exemplo bandas de rock como Sex Pistols e claro, sem esquecer das influências do rap, em geral norte americanas como Beastie Boys, Cypress Hill e Public Enemy.

Fora que o design de som é excelente, pois essas músicas em sua maioria são pertencentes a narrativa, ou seja, de fato estão tocando no momento da cena, inclusive em alguns dos shows ou das gravações da dupla principal.

Com um roteiro detalhista que estabelece bem os arcos, montagem elegante e coerente, atuações acima da média, além de contar uma história pertencente a cultura do Brasil, “Legalize já - a amizade nunca morre” é um filme sobre amor e um dos melhores lançamentos nacionais do ano.

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