5.11.18

Crítica: Desobediência

Desobediência
Imagem: SONY PICTURES / Divulgação

“Sempre que estou sozinho com você, você me faz sentir que estou em casa de novo”. Essa frase, da música “Lovesong” do The Cure, resume bem o que é o sentimento e a sensação de amar e ainda dá para acrescentar algo, não precisamos estar necessariamente sozinhos com alguém, podemos apenas estar com alguém para nos sentirmos em casa.

Esse é o sentimento de Ronit, interpretada por Rachel Weisz, ao apenas ver, pela primeira vez depois de muito tempo, Esti (Rachel McAdams). Isso fica claro logo no vislumbrar inicial de Ronit para a moça, mesmo que o momento não seja o mais favorável possível, ambas se encontram no velório do pai de Ronit, um rabino bem-conceituado na comunidade judaica. O amor fica claro já neste encontro de olhares.


Dirigido por Sebastian Lelio (vencedor do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro por “Uma Mulher Fantástica”), “Desobediência” conta a história acima, Ronit, fotografa e moradora de Nova Iorque, volta para casa ao descobrir que o pai faleceu. Sem nem saber que ele estava doente, a moça se hospeda na casa de Dovid (Alessandro Nivola) e Esti, seus melhores amigos na infância e agora casados. Assim, ela e Esti passam a reviver o amor que tiveram na juventude.

A obra é comunicativa a todo tempo sobre essa relação, sem empurrar nada para o público e usando bem a duração da projeção para desenvolver as duas personagens, contextualizar o espectador sobre o relacionamento passado delas e como a religião influenciou na partida de uma e na vida atual da outra.

Essa influência é mostrada pela fotografia, que trabalha bem a profundidade de campo dependendo da cena e da sensação que o diretor quer passar no momento. Na casa de Dovid, a câmera está mais próxima dos personagens, principalmente de Esti, mostrando como ela se sente presa ali, tanto ao casamento, quanto em relação a rotina a qual ela é forçada a viver. A claustrofobia vivida pela personagem, vai perdendo espaço com a reaproximação dela com Ronit.

Pois o amor passa a dominar, assim, os movimentos de câmera passam a ser mais frequentes, como os travellings para trás enquanto as duas caminham, não dissolvendo o trajeto (como ocorre quando elas caminham de forma solitária, através dos cortes secos), e também da cor, na casa, as cenas são sempre mais escuras, quando as duas estão juntas, fora deste local, a luz ganha mais força e a iluminação um pouco mais clara predomina.

Assim como o amor delas predomina, uma se esforça para que a outra não se sinta sozinha, logo, a vontade delas faz com que as atuações sejam comoventes, Weisz passa o tempo todo o sentimento de luta, porém não esconde o medo que tem de estar naquela comunidade novamente, e apenas está devido a Esti, mesmo com o acontecido com o pai, a moça é o principal motivo, Ronit quer amar novamente, a única pessoa quer ela quer amar é Esti.

Rachel McAdams constrói a personagem de forma complexa, escondendo todos os seus sentimentos por trás da rotina que lhe foi preestabelecida, ela gosta da profissão, mas não gosta de como a exerce, ela sabe que o casamento dela com Dovid não é por amor, mas ela não vê saída, a não ser uma, aquela que o relacionamento com Ronit lhe oferece.

Ela se sente em casa quando está com Ronit, e a grande sacada de “Desobediência” é mostrar como as pessoas se sentem em casa uma estando com a outra e principalmente, como é difícil lutar para que o relacionamento e portanto, sua nova casa, dê certo e seja bem construído. Assim, o objetivo das duas é se sentirem inteiras estando juntas, uma completando a outra, mesmo que elas consigam viver bem enquanto separadas.

E sempre lembrando que, usando novamente a música do "The Cure", independentemente da distância, elas sempre se amarão".

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