1.11.18

Crítica: Roma (2018)

Roma
Imagem: NETFLIX / DIVULGAÇÃO
É incrível como o silencio, as vezes pode comunicar muito mais do que o barulho, como o olhar pode dizer mais que a fala e como as pessoas podem surpreender, para o lado bom, quando não pensamos que isso é possível.

“Roma”, de Alfonso Cuarón, começa com um plano longo, fixo, do chão que Cléo (Yalitza Aparicio) está limpando. Enquanto os créditos iniciais estão na tela e a água vai sendo passada de um lado para o outro pelas mãos da moça, Cuáron já faz o público pensar sobre a questão social que permeia todo o filme, a relação desta com a patroa Sofia (Marina de Tavira) e sobre o México nos anos 70.

Os créditos acabam, a câmera sobe lentamente, vemos a casa onde Cleo trabalha, vemos a moça pela primeira vez e através de um plano longo belíssimo, percebemos como ela transmite amor aos seres que moram ali com ela, no caso, o primeiro exemplo disso é a relação da moça com Borras, o cachorro da casa.

Então, logo nos primeiros cinco minutos de “Roma”, percebemos exatamente o que o filme vai ser pelas próximas duas horas e dez de duração: um retrato neorrealista sobre amor, em um país latino, sobre uma empregada descendente de indígena que trabalha para uma família rica no bairro que dá título a obra.

Porém, mais do que isso, “Roma” é um retrato sobre silencio, nos comportamentos, nas demonstrações de sentimento (seja este qual for), sobre amor e principalmente, sobre dor, porque assistir ao filme é assistir a vida de Cléo e ver como essa vida é dura, não é uma vida de todo ruim, mas, é vida sofrida.

Sofrimento que vemos graças aos planos longos que Cuarón estabelece tão bem, através de travellings para o lado, que seguem a ação, seja onde ela já aconteceu ou, onde ainda vai acontecer, muitas vezes, dando close em determinados objetos ou rostos presentes na cena, para percebermos a realidade de tudo aquilo que é retratado no filme.

Essa realidade é potencializada pelas panorâmicas leves que Cuarón usa para estabelecer ritmo e separar uma sociedade da outra. Porque se Cléo trabalha em uma casa bonita, iluminada, que nunca falta nada, ela mora em outra casa, esta escura, que tem apenas o suficiente, mas, que não falta o amor, este nutrido por ela e por sua companheira de trabalho, Adela.

Possivelmente, é esse sentimento que justifica a escolha de fotografia de Cuarón, um preto e branco seco, mesmo nas cenas urbanas, aproveitando bem os 65mm nos quais o filme foi rodado para passar a amplitude da Cidade do México, tanto na parte urbana, quanto nas cenas do interior, onde as pessoas são tão secas quanto em qualquer outro lugar do país.

O que mostra como as relações entre patrão e empregado não mudaram dos anos 70 para cá, mas, a relação entre mulheres sim. Por isso, o filme muda de tom a partir do momento em que Sofia diz para Cléo, “Estamos sozinhas, lembre-se disso, nós, mulheres, estamos sozinhas”. Neste momento, a relação evolui, deixando de ser a de patroa-empregada, para se tornar a de duas mulheres que se ajudam, como se fosse um círculo, que incluísse apenas mulheres que sofrem por causa dos homens que tanto a prejudicam e de tantas formas diferentes.

Aqui, o estilo neorrealista da filmagem, em preto e branco, câmera na mão e próxima ao personagem, travellings para os lados, panorâmicas, aproximam o público da trajetória de Cléo mais do que nunca, pois, apesar de tudo isso, o silencio nunca foi quebrado, porque a dor que Cléo sente, apenas passa a ser externada a partir do momento descrito no parágrafo acima, tornando o filme mais íntimo, pelo tipo de abandono sofrido por ela ser frequente e dando a obra a força necessária, para que possamos entender o amor que a moça sente, mesmo com o tanto que sofre.

Ou seja, se tem algo que a personagem passa, é sentimento e Yalitza Aparicio é soberba ao criar a personagem, com base no roteiro do diretor, com o objetivo de passar o sentimento de Cléo para o público e o tom de voz suave, a esperança no olhar, a força no choro, a tristeza que sente e o amor que passa, tocam o público mesmo sem nós sabermos disso.

Assim, é compreensível e inteligente, Cuarón terminar o filme com a moça subindo as escadas externas da casa, com a câmera estando posicionada embaixo, mas sendo direcionada para cima, em direção ao sol. O céu é o limite para Cléo, ela descobriu, na figura da patroa, que tem alguém para confiar e mesmo que continue trabalhando, em algo que não gosta, ela está satisfeita com ela mesma e, para a protagonista silenciosa desse filme belíssimo, isso é o que mais importa.

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