8.4.19

Crítica: Suspiria (2018)

Imagem: DIVULGAÇÃO
Tempo, força e espaço, são os três elementos que fazem a dança viva”. Essa frase, dita em um certo momento de “Suspiria” (2018), mostra como o diretor Luca Guadagnino (de “Me Chame Pelo Seu Nome”), usou esses mesmos elementos para construir um reboot (não é possível que alguém considere um “remake”) do clássico de Dario Argento.

Tempo pela duração do filme, de quase duas horas e meia, espaço pela dança que interliga as tramas e força por trazer coisas muito mais interessantes sobre o mesmo assunto que Argento aborda em seu filme, mas que Guadagnino apenas usa como base, criando algo mais complexo.

Basicamente, a história é a mesma do filme de 1977, Susie Bannion (Dakota Johnson), é uma bailarina que chega a uma conceituada companhia em Berlim, para ter aulas e se apresentar no seu segmento de dança, a contemporânea (no clássico era balé). Bannion passa a ter aulas com Viva Blanc (Tilda Swinton) e a conhecer o passado do local, seja pela figura quase invisível de Patricia (Chloe Grace Moretz) ou pela quase sempre presente Sara (Mia Goth). Aliado a essa trama, acompanhamos o psiquiatra Josef Klemperer (Lutz Ebensdorf) investigando o desaparecimento de Patricia, que foi sua paciente.

As diferenças se devem em como Guadagnino investe no mistério e não dá nada de graça para seu público, de modo a ser o espectador o primeiro a solucionar a trama e não as personagens e perceber como todos ali, com exceção de Sara (e claro, Patricia), estão concordando com aquilo ou nem sabem o que está acontecendo, mas não se preocupam em investigar.

Porque os rituais e as “transferências” são coisas que acontecem dentro da companhia de forma muito clara, com a dança e as habilidades nessa como uma moeda de troca, basta a pessoa escolher se quer aceitar o acordo ou não. Guadagnino deixa isso bem claro, através de planos longos, investindo em travellings bruscos para frente e para o lado, com o objetivo de mostrar a normalidade dentro da escola e estabelecer fluidez em seu roteiro e edição.

Essa fluidez é bem construída, de modo a deixar todo o filme interessante e o seu público curioso. O roteiro, dividido em seis atos, expostos em subtítulos durante o inicio de cada ato no filme é bem escrito e não tem pressa em trabalhar o submundo da companhia onde a maioria da obra se passa e consegue, também, dar tempo igual tanto para a trama do psiquiatra, quanto para a história principal.

É interessante notar que mesmo não sendo um remake, a escola onde o filme se passa tem aspectos da escola do filme de 1977. As obras abstratas que compõem o piso e algumas das paredes se mantiveram, assim como as salas grandes e bem distribuídas e os quartos pequenos das alunas. A diferença é que se no filme de Argento, o local é cheio de cores que representam as sensações das mulheres que comandam a companhia e da personagem principal, na nova versão, o mesmo lugar é tomado quase sempre pela escuridão total.

Porém, as cores do filme de Argento, o roxo e vermelho principalmente, estão presentes, em planos individuais de Swinton e Johnson, representando a libido e o desejo e nos flashbacks de Johnson, onde conhecemos um pouco mais sobre o passado de Susie Bannion. Além de representarem como as mulheres que comandam a escola pensam, no filme de 1977, as cores servem para mostrar a hipocrisia do local, no novo filme, a falta delas serve para expor o objetivo para as alunas, que, como já dito, aceitam aquilo de forma voluntária ou não.

Outra grande diferença dos dois filmes é a trilha, o de 2018 é superior também nesse ponto, Thom Yorke compôs e cantou músicas que se encaixam de maneira perfeita na aura de mistério construída por Guadagnino e seu roteiro, logo, isso também ajuda na fluidez da narrativa e em fazer os seis atos + epilogo, que variam de 15 a 20 minutos cada, serem orgânicos em sua estrutura.

Mas, se “Suspiria” tem todos esses pontos positivos que fazem dele um grande filme, também há os pontos negativos que se corrigidos, poderiam ter feito a obra ser genial. Apesar da fluidez do roteiro e edição, o filme poderia ser mais curto, o que levaria mais dinamismo a obra e enxugaria algumas cenas desnecessárias, exemplo, a trama do psiquiatra é importante, mas a cena inicial com Grace Moretz não, Patricia poderia ter sido uma presença invisível de fato, morando no imaginário dos personagens e do espectador.

Também há a questão do elenco, com exceção de Mia Goth e de Lutz Ebensdorf, que interpretam Sara e o Dr.Klemperer muito bem, o resto das atrizes não entrega aquilo que é pedido. Tilda Swinton parece estar interpretando ela mesma, não acrescentando nada demais a Viva Blanc, o papel da atriz é beneficiado pela aura construída pelo filme, Dakota Johnson se mostra uma atriz limitada, a expressão dela quase não muda, seja na dança e nos movimentos, quando se dá conta que está sendo manipulada ou nas conversas com Sara, o que prejudica o filme, já que estamos falando daquela que interpreta a atriz principal.

Por fim, apesar de a direção de Guadagnino ser boa e criativa, toda a aura parece ter sido construída pela fotografia, trilha sonora, edição de forma separada e não em conjunto com a direção, logo, o diretor se beneficiou de uma equipe talentosa para construir o filme.

O que me leva a pensar “eu adorei o filme, mas se fosse outro diretor e elenco, poderia ser melhor?”, talvez sim, talvez não, mas ver nos agradecimentos durante os créditos o nome de Paul Thomas Anderson, me traz o pensamento “e se PTA tivesse dirigido? Seria melhor?”

Nesse caso, a resposta é “sim”, mas isso não tira os méritos desse “Suspiria”, que é interessante até o último segundo.

PS: Há uma pequena cena pós créditos

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