27.5.19

Crítica: Compra-me um revólver

Compra-me um revólver
Imagem: Pandora Filmes / DIVULGAÇÃO
Após a revolução iraniana, que resultou na mudança do sistema, de uma monarquia para uma república islâmica, trouxe para os cineastas do país uma dificuldade: fazer filmes que contassem histórias de seu próprio povo, já que tudo passava pelo crivo da religião e muitas coisas eram proibidas de ir ao ar.

Porém, diretores como Majid Majidi, Jafar Panahi, Abbas Kiarostami, Mohsen Makhmalbaf e outros, usavam crianças e mulheres como personagens principais de suas obras, dessa maneira, burlavam a censura imposta pelo governo e conseguiam construir histórias sérias e retratos sociais sobre o povo iraniano.

Júlio Hernandez Cordón faz a mesma coisa que os cineastas acima em seu filme “Compra-me um revólver”, não para escapar de algum tipo de censura e sim para contar uma história séria e até certo ponto fantasiosa, tornando tudo mais cruel por ser de uma criança o ponto de vista principal.

No caso, Huck (Matilde Hernandez) é uma menina que vive em um México dominado por cartéis, onde as mulheres não existem em sociedade, pois os membros das milícias as sequestram. Disfarçada como menino por seu pai, ela sobrevive em meio ao caos e a violência.

O filme usa o estilo neorrealista em alguns momentos para estabelecer toda a crueldade daquele mundo, de forma que a fotografia quase toda em luz natural e as cenas externas dão ao público a noção da opressão sofrida pelas pessoas não envolvidas com o cartel.

A luz natural, que é amplificada graças a maioria das cenas serem externas, ajudam na construção que a protagonista faz e ao enxergarmos tudo aquilo pelos olhos dela, tudo fica mais cru ainda, mais real, assim como a combinação de amarelo e laranja do por do sol e o escuro da noite.

Essas características influenciam em como o filme quer passar a noção não tão distópica assim de um mundo cada vez pior. Mulheres são usadas unicamente como objetos e apenas homens são seres independentes, as crianças são jogadas ao abandono mesmo quando um dos pais está presente e tudo está ligado ao crime.

Vemos isso através de uma câmera que se movimenta naturalmente, usando a narração em off de Huck para que associemos de maneira automática o que ela diz ao o que estamos vendo, como o sol que brilha forte e as crianças brincando e tentando viver em meio ao apocalipse.

Durante a projeção, há cenas sem nenhum corte, algumas delas envolvendo as crianças, Huck, Angel, Rafa e mais outro amigo. São nessas situações, nos diálogos entre os quatro, que estão os grandes momentos do filme, já que um plano sequencia é difícil, um que tenha crianças é mais difícil.

Compra-me um revólver
Imagem: Pandora Filmes / DIVULGAÇÃO

É esse tipo de decisão ousada de Cordón que faz sua direção ser segura, elegante e contribui para que o filme tenha um bom ritmo, sem ser muito acelerado, desenvolvendo a protagonista com calma, ao mesmo que tempo que apresenta um mundo que, como a legenda inicial diz, é pertencente a qualquer época.

Com um final repentino, não natural dentro da trama, por ter sido criado sem nenhuma base e em uma personagem que até então pensávamos incapaz de tal coisa, o terceiro ato oscila entre as coisas boas, a cena da festa é elegante, tensa e dinâmica, e as coisas ruins, a brusquidão com a qual foi criada e desenvolvida o final do filme, ainda assim, o último quadro é lindo e homenageia “Blow Up” de Antonioni.

Em seu sétimo trabalho (entre longas, curtas e documentários), Júlio Hernandez Cordón vem mostrando cada vez mais segurança e “Compra-me um revólver” é um claro exemplo de como o diretor é mais um nome talentoso da excelente geração de cineastas mexicanos.

Veja o trailer do filme aqui:

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