3.5.19

Independência, sistema e criação - Gabriela Amaral Almeida e "A Sombra do Pai"

Foto: João Naves / IPTC Photo / Divulgação / SITGES
Foto: João Naves / IPTC Photo / Divulgação / SITGES

Diretora e escritora, Gabriela Amaral Almeida volta aos cinemas nacionais com “A Sombra do Pai”, premiado nas categorias Melhor Atriz (Luciana Paes), Melhor Montagem (Karen Akerman) e Melhor Som (Gabriela Cunha) no Festival de Brasília. A obra traz também Nina Medeiros (vivendo a protagonista Dalva) e Júlio Machado no elenco.

O filme conta a história de Dalva, que precisa assumir as responsabilidades da casa quando Jorge, seu pai, fica doente, e tem a rotina cada vez mais tomada pelo trabalho. Sem a mãe e com a tia Cristina (Luciana Paes) se casando e indo morar com o marido, Dalva encontra refúgio na religião e nos filmes de terror.

Em entrevista ao site "Assim Falou Victor", Gabriela afirma que a ideia do filme foi “Muito baseada nas minhas questões de infância e em um questionamento muito presente em mim sobre por onde é que vaza a questão de trabalhadores da classe operária.”

Assim como em “O Animal Cordial”, ela aborda as questões trabalhistas no novo filme, ao mesmo tempo em que faz um retrato social feminino, usando o isolamento como ferramenta já que Dalva tenta interagir com o pai de diversas formas, sem conseguir.

Segundo a diretora, isso é fruto de um sistema em que o homem pode ser o que quiser e a mulher precisa lutar pela sua independência, como Dalva faz o tempo todo. “Apesar de ser vítima, ela não se vitimiza, é uma personagem muito forte. O que ela faz, me vem muito na cabeça a personagem (Ofélia) de ‘O Labirinto do Fauno’ do Guillermo del Toro, porque ambas recriam a realidade”, diz.

Esse sistema é retratado de forma obscura, uma vez que trabalha com o não dito, não mostrado, permitindo que a tensão se instale no espectador de forma contínua durante toda a obra.

Essa escuridão também serve para trabalhar o inconsciente, os sentidos, de forma que o público saiba o que está vendo, mas precisa refletir sobre aquilo para entender de fato. A diretora usa essa estratégia para escrever seus argumentos e roteiros. “Em processos criativos eu acesso sempre através dos sentidos, nunca através do racional."

Percebemos que o novo filme de Gabriela não é apenas a história de uma menina que assume responsabilidades adultas, mas pode ser considerado uma metáfora sobre o Brasil e uma resposta ao atual momento do país.

“A gente precisa reconhecer o terreno que tá pisando e, ao reproduzir esse modelo, o que me interessa é tornar lúdica a minha crença de que dessa forma os dramas não serão resolvidos, nem da Dalva, nem do pai, nem da tia.”

A Sombra do Pai” é mais do que um filme de terror: ele serve como comparação em uma sociedade que não consegue mais esconder as piores coisas de seu passado.

Confere também a crítica do filme que já está disponível no site.

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