6.5.19

Crítica: Mormaço

Mormaço
Imagem: VITRINE FILMES / DIVULGAÇÃO
“Eu não vejo os meus segredos espalhados nessa casa”, diz, em certo momento de “Mormaço”, a personagem principal Ana, interpretada por Marina Provenzzano. Ela não vê, mas entende que outras pessoas possam ver seus segredos, trajetórias e histórias em suas casas.

Por isso ela, advogada, defende os moradores da Vila Autódromo, que vivem sob ameaça da desapropriação de suas casas, devido a construção do Parque Olímpico para as Olimpíadas do Rio 2016. Mas, claro, também por conta de quererem expulsar pessoas que moram próximas a uma área rica da cidade.

Essa é a história principal que Marina Meliande conta em “Mormaço”, filme que dirige, co-escreve e monta. Digo “Principal” pois Ana precisará se mudar do seu apartamento já que uma construtora comprou o prédio para a construção de um hotel, também devido a Olimpíada. Além disso, manchas passam a aparecer no corpo dela, a origem e motivo destas não é conhecido.

Logo de cara percebemos que o objetivo do filme é mostrar um Rio de Janeiro que não é visto e nem divulgado em propagandas de turismo. Assim como em Florida Project, vemos os subúrbios, as periferias, as feiras e tudo aquilo que não são pontos turísticos da cidade.

O roteiro, bem escrito, facilita nessa exposição de uma cidade que pouca gente conhece e uma cidade mais palpável em comparação com aquela que vemos em outros filmes. A fotografia usa as cores claras, para passar um clima quente, mas também seco, que domina o local durante quase todo ano, além de usar os planos abertos para conseguimos ver como as pessoas sofrem com esse calor.

Esses planos abertos constantemente têm Ana posicionada em seu centro, como protagonista e para que o público veja como ela é afetada pela cidade em que vive. O que fica bem claro graças a atuação competente de Marina Provenzzano, que constrói Ana como uma pessoa que tem empatia pelos outros e por isso defende quem sofre com a falta de direito a cidade.

Talvez, essa empatia e “ficar dando murro em ponta de faca”, como a própria diz, expliquem as manchas que aparecem pelo seu corpo. Elas podem servir como uma espécie de sinal para a certeza que a luta dela não dará bons resultados e que os moradores pelos quais luta perderão suas casas e assim como passar pomada nas manchas não vai adiantar, lutar também não vai.

Ao mesmo tempo em que ela é obrigada, por ter moral e empatia, a continuar lutando por aquelas pessoas. Ela não pode pensar em desistir, o que o roteiro também estabelece muito bem durante as 1h40 de projeção: a insistência e necessidade de Ana continuar lutando, apesar de precisar pensar em sua vida pessoal.

Por mais que o filme tenha todo esse apelo social, o terceiro ato dele parte para o surreal (partindo das manchas), o que prejudica um pouco a obra em seu ritmo, já que temos que nos adaptar ao novo ponto de vista da história. Ainda assim, a ideia das manchas é efetiva, mas, talvez, se tivesse ficado apenas no lado metafórico, teria funcionado de forma mais integrada aos dois primeiros atos.

“Mormaço” é um filme que vale a pena ser visto, para que vejamos que nem todo mundo tem direito a cidade e que tem gente que precisa lutar todo dia para ter um lugar onde morar, independente de ser em época de Olimpíada ou não.

Veja o trailer, filme distribuído pela Vitrine Filmes:

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