8.8.19

Crítica: Histórias assustadoras para se contar no escuro

Histórias assustadoras para se contar no escuro
Imagem: Diamond Films / DIVULGAÇÃO
“Histórias curam, histórias machucam”. Essa frase, que inicia o filme “Histórias assustadoras para se contar no escuro”, dirigido por André Ovredal, resume um pouco da protagonista, Stella, interpretada por Zoe Colletti e moradora da cidade de Mill Valley.

Junto com seus amigos Auggie (Gabriel Rush), Chuck (Austin Zajur) e Ramon (Michael Garza), eles passam a tentar descobrir a história de Sarah Bellows, moradora da cidade, que foi presa em casa e considerada louca pelos seus pais. Ela se distraia escrevendo histórias em um livro, histórias essas que aconteceram de verdade, envolveram desaparecimentos e mortes. Com a tentativa de descobrir o mistério, outras histórias começam a ser escritas no livro, dessa vez envolvendo os amigos de Stella.

Essa, que é uma protagonista clássica, que tenta resolver problemas e em geral, consegue. Além disso, é a típica personagem de Guillermo Del Toro, produtor (e apenas produtor) desse filme, já que o diretor de filmes como “O Labirinto do Fauno” e “A Forma da Água”, cria protagonistas de diversas idades, no primeiro filme citado era uma menina e no ultimo uma mulher adulta, em “Histórias Assustadoras” vemos uma adolescente, ainda no ensino médio.

Graças a ela e a sua vontade de descobrir o mistério de Bellows, é que o filme tem seus pontos altos. É inteligente o uso do livro exclusivamente no ambiente da obra (a chamada diegese no cinema), pois é na medida que as histórias vão sendo escritas que as coisas vão acontecendo e vemos as mensagens dentro do roteiro.

Como, por exemplo, o fato de Mill Valley ser uma cidade racista e xenófoba. Reparem que Ramon sempre é tratado com desprezo, seja ele explicito – como no caso de Tommy e do chefe de polícia – ou implícito, como no caso de Chuck, que quase nunca se refere a ele. No caso do racismo, a cidade atribui a loucura de Sarah não aos pais dela a terem prendido no quarto mas as empregadas da casa, negras, terem supostamente ensinado magia negra para a menina.

O filme quebra isso e não a toa, a obra começa mostrando “A Noite dos Mortos Vivos” de George Romero, expondo além da xenofobia da cidade, o fato de que Sarah nunca aprendeu magia negra e tudo o que ela sentia era raiva, raiva de uma cidade que a tratava (e trata, vide a personagem de Ruth) como objeto e trata as mulheres negras como bruxas.

Apesar de essa abordagem ser muito boa e gerar reflexões, ela é mal aproveitada pelo filme, que aposta mais no jumpscare do que gerar debates mais aprofundados sobre os assuntos citados e essa aposta é algo aceitável, principalmente quando é bem-feita.

Vemos muitos movimentos de câmera que ajudam a expor os monstros variados de todas as histórias. As cenas escuras, acontecem em lugares que dentro do filme não tem nenhuma iluminação de fato, o que é uma demonstração de respeito com o público, já que busca criar um ambiente real dentro da história em questão e as cenas claras, são dominantes no filme.

Por essa decisão, fica claro que a influência de Del Toro não foi na direção, já que os filmes dele são tradicionalmente escuros, independente da cena ser externa ou interna.  O que é muito bom, pois precisamos ver e entender a história através de uma exposição visual bem-feita. Um bom exemplo é a cena onde vemos a casa pela primeira vez, de longe, com uma lente grande angular que permite que vejamos a casa por completo e com um plano holandês leve, expondo a confusão que está por vir.

Confusão que também mora dentro dos personagens, já que muitas das histórias já foram contadas a eles quando eram crianças, o que cria uma atmosfera de pessoalidade e empatia, ponto esse bem aproveitado pelo diretor, que usa os medos dos personagens como forma de levar medo ao público, até porque, provavelmente nós escutamos no mínimo uma história de terror e sentimos algum medo quando éramos crianças ou adolescentes e, provavelmente, nós contamos essa história que ouvimos e compartilhamos esse medo que sentimos para outras crianças ou adolescentes.

É por isso que a frase “Histórias curam, histórias machucam”, ganha um significado maior quando ela é completada por “Repetir histórias as tornam reais, elas têm esse poder”. Pois sim, de fato, histórias, independente de serem de terror ou não tem esse poder e ficam na gente pelo resto de nossas vidas.

Essa força torna as histórias, independente de quais sejam, assustadoras e não necessariamente para se contar no escuro.

Veja o trailer aqui, filme distribuído pela Diamond Films: 

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