16.10.19

Crítica: Cicatrizes

Cicatrizes
Imagem: DIVULGAÇÃO
As características do cinema do leste europeu são perfeitas para um filme como “Cicatrizes”. A obra dirigida por Miroslav Terzic e escrita por Elma Tataragic conta uma história real a partir de uma ficção, a do desaparecimento de crianças pelos mais diversos motivos.

No caso de Ana (Snezana Bogdanovic), seu filho foi dado como morto logo após o nascimento. Ela acredita que o menino, que batizou de Stefan, ainda está vivo e o procura por 18 anos, mesmo que seu marido Jovan (Marko Bacovic) e sua filha Ivana (Jovana Stokjiljkovic) sejam contra isso. Após encontrar uma pista, a investigação de Ana ganha novos patamares.

Devido a sua família não apoiar sua decisão de continuar procurando o filho, Ana é uma mulher solitária, porém, ela já seria assim por naturalidade. Sua filha, assim como todos os filhos mais cedo ou mais tarde está se distanciando dos pais e da família e seu marido prefere seguir em frente e tentar continuar a vida. Logo, Ana fica sozinha para qualquer lugar onde vá.

A fotografia sóbria, com tons que variam entre cinza e o preto, ajuda nessa construção da solidão e principalmente a câmera, que sempre enquadra Ana nos cantos do quadro, de forma a vermos todo o local onde ela está, mostram como ela não tem mais para onde ir, a não ser continuar procurando seu filho.

Isso, além de ser triste, pois o único caminho que ela enxerga como visível é esse, expõe como as pessoas lidam de formas diferentes com a morte e acontecimentos trágicos. Uns seguem em frente, outros não e nenhum desses caminhos é errado, pois pessoas são diferentes em tudo, inclusive na forma de lidar com a vida.

Por isso, imagino, a fotografia já citada e os sons que são apenas os do ambiente, sem nenhum tipo de música, se encaixam tão bem. Não só por serem clássicos do cinema sérvio, mas por se encaixarem perfeitamente na história da personagem principal.

Já que Ana não se diverte e sua vida não tem cor, logo, não faria sentido ela usar tons coloridos como roupa e escutar música. É como se a fotografia e o som que o público escuta enquanto assiste ao filme fosse subjetivo e exatamente aquilo que Ana escuta, mas, não é só isso, é como se a intenção do diretor seja fazer que o público sinta o que ela sente.

O que funciona não apenas por causa da fotografia e do som, mas principalmente devido ao roteiro bem escrito, que usa a câmera estática para criar frieza e não esquece de fechar os arcos que cria, mesmo que faça isso de forma minimalista, como, por exemplo, o namorado de Ivana, que nunca aparece, mas que sabemos o final da história dos dois sem grandes dificuldades.

Por mais que fique uma sensação que há mais por trás da morte do filho de Ana (como é exposto em uma das cenas em que ela fala com a polícia), “Cicatrizes” é um filme que cumpre bem o proposto, aposta na inteligência do público e mostra como as cicatrizes deixadas nas pessoas após algo trágico podem ser diferentes e que elas merecem ser fechadas, mesmo que seja com um simples band-aid.

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