11.10.19

Crítica: Parasita

Parasita
Imagem: Pandora Filmes / DIVULGAÇÃO
Em dado momento de “Parasite”, novo filme de Bong Joon-Ho, vencedor da Palma de Ouro no Festival de Cannes em 2019, o personagem Kim Ki-Taek (interpretado pelo frequente colaborador de Joon-Ho, Song Kang-Ho) diz para sua família “Mas essa família é tão ingênua”.

A família a qual o personagem se referiu é o grupo que ele , seus filhos e sua esposa estão enganando. O filho finge ser professor de inglês, a filha finge ser psicóloga especializada em terapia artística, o pai é o motorista e a mãe é a empregada da casa.

Mas não é que a família rica que cai nesse golpe é ingênua, é que eles de fato pensam daquele jeito, não é preconceito disfarçado de inocência, não é ser bondoso porque é rico, é apenas preconceito e acima de tudo, são apenas pessoas ricas e insensíveis com qualquer um que não seja tão rico quanto eles.

Esse é apenas um dos pontos (por mais que seja um dos carros chefe do filme), que Joon-Ho aborda em “Parasite”. Através da sátira, o diretor e co roteirista constrói uma metáfora social, onde vemos dois grupos completamente distintos da sociedade interagindo entre si e as constantes diferenças entre o 1% representado pela família rica e o resto da população representada pela família pobre entrando em conflito.

Até porque, se tem algo que a família rica sabe sustentar é um conflito, pois são eles os geradores da maioria deles, já que eles, através de sua insensibilidade e falsa simpatia disfarçada de preconceito, são os mantenedores da desigualdade social e dos diversos tipos existentes de segregação.

Logo, acompanhamos esse conflito, quando Ki-Woo, o filho de Ki-Taek, após ser recomendado a virar o professor particular de inglês de uma jovem herdeira da família rica em questão, dá um jeito de colocar seus pais e irmã para trabalhar na mesma casa, através de golpes e enganações nos “ingênuos” empregadores.

É notável como Joon-Ho cria o roteiro aliado com a montagem do filme, já que a alternância entre riqueza e pobreza é frequente, não apenas através de cortes secos, mas com o uso de travellings (como os frequentes movimentos para o lado e para frente, de forma que vejamos a cena por vários pontos de vista), que deixam a obra movimentada e dinâmica, além de permitir que o público perceba como a insensibilidade está presente naquela casa e assim, passe a se importar com a família golpista.

Vemos que os pais ricos não contratam pessoas para trabalhar na casa, mas os contratam para educar os filhos que nunca quiseram ter e que apenas desejam mimar de todas as formas (vide o filho mais novo e a cena que ele dorme no quintal). Vemos que eles não se importam com educação, não apenas porque não querem educar a prole, mas por nem se preocuparem em checar o currículo do “professor” e da “psicóloga” que contrataram.

Ou seja, eles reforçam estereótipos de forma natural, sejam os preconceituosos como um “nossa, a chuva foi uma benção” sem nem ao menos cogitar pessoas que podem ter perdido tudo devido à chuva, ou, como algo que é frequente no Brasil, através do clássico “eu gosto do frio, porque as pessoas se vestem melhor”. 

Parasita
Imagem: Pandora Filmes / DIVULGAÇÃO
Pois é, nem todo mundo tem uma casa para morar e não se preocupar em perder tudo ou tem alguma roupa para vestir e se aquecer quando faz frio. O interessante em como Joon-Ho passa isso é que ele faz através do humor, inicialmente em como todo aquele golpe é surreal, mas tão surreal, que se torna palpável a ponto de engolirmos aquilo.

E com o passar do tempo, esse palpável se torna mais do que algo que podemos ver ou tocar, se torna algo real e se torna uma mensagem sobre o sistema em que vivemos, em que o rico é cada vez mais rico, o pobre é cada vez mais pobre e que o rico quer passar a imagem de que construiu sua fortuna trabalhando e não que herdou tudo o que tem.

Logo, o que começa como uma sátira ao capitalismo se desenvolve a ponto de ser uma sátira sobre a vida em sociedade, pois é tão real, principalmente hoje em dia, que startups, coaches e meritocracia estão surgindo cada vez mais e cada vez com mais força. Vivemos em uma sociedade onde o pobre tenta ser rico, no sentido de ter o suficiente para viver e o rico tenta ser mais rico no sentido de não deixar nada para o pobre.

Sem esquecer de que todos os governos não se importam com o pobre, pois, na maioria dos casos, o governo é formado por pessoas ricas que tem vontade de ficar mais ricos utilizando o sistema vigente para esse objetivo. Assim, se uma família como a do filme de Joon-Ho mora em um porão e ninguém tem emprego, não é apenas por culpa deles, é uma culpa conjunta com um modo de vida que comanda a sociedade.

Por isso que a sátira de Joon-Ho, construída através de um roteiro que além de apresentar os movimentos de câmera e a montagem já descritas, é tão efetiva, pois ela cumpre o objetivo da arte, que é fazer o público ver sua vida, ou ao menos parte dela, na obra, de forma a criar empatia, seja pela própria situação, seja pela situação do outro.

Mas o diretor também cria simbolismos e apesar de ter um papel menor dentro da trama, eles servem para enriquecer um roteiro já rico. A pedra dada de presente a Ki-Woo, por exemplo, significa, de acordo com o próprio filme, sucesso material e logo em seguida a família conquista esse sucesso, já que passam a ter emprego e a conseguir se sustentar e suprir suas necessidades.

Da mesma forma que o quadro inicial e final do filme, a câmera focando nas meias secando em frente a janela do porão onde Ki-Taek mora com sua família, significa como, por mais que eles tenham tentado e em parte até conseguido o mínimo para viver, mesmo que de uma forma desonesta, nada mudou e, provavelmente, nunca mudará.

A maioria das pessoas que são tão ricas quanto a família rica do filme continuará sendo insensível, a pobreza da maioria, aos olhos desses ricos insensíveis, continuará sendo natural para eles, a história dos povos originários continuará servindo de entretenimento e se importar com o próximo continuará sendo custoso.

E infelizmente e a escolha do título foi acertada, nós, a maioria, continuaremos sendo tratados como parasitas por pessoas que nunca precisaram se esforçar para ter o que queriam e por mais que o final do filme de Bong Joon-Ho seja até otimista, mesmo que carregado desse simbolismo, convenhamos que a probabilidade de Ki-Woo realizar aquilo que ele disse é bem baixa, por mais que a esperança nunca tenha sido tão alta.

Veja o trailer aqui, filme distribuído pela Pandora Filmes:

2 comentários:

  1. Valdir Conceição11 de outubro de 2019 21:19

    Parece bem interessante. Quando lançar vou conferir . Parabéns pela crítica.

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  2. Valdir Conceição30 de janeiro de 2020 21:41

    Gostei muito do filme , e a crítica está bem fiel ao filme , descreve exatamente o contexto do filme,sem contar com o paralelo descrito onde mostra as semelhanças nas situações (chuva ,frio ) etc. Parabéns pelo trabalho

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