28.10.19

Crítica: System Crasher

System Crasher
Imagem: Divulgação
É importante pensarmos, principalmente nos dias de hoje, que todos nós somos ansiosos e até mesmo solitários, muitas pessoas não sabem lidar com isso, algumas em grau médio, outras em graus muito altos, independente da idade e do momento da vida em que estamos.

No caso de Benni (Helena Zengel), tanto a idade, nove anos, quanto o momento da vida são difíceis e “System Crasher” (Quebradora de sistema na tradução literal) nada mais é que um filme sobre angústia e solidão sob o ponto de vista dessa personagem. Dirigido por Nora Fingscheidt, a obra acompanha a garota, que vive de lar adotivo em lar adotivo e em vários hospitais, devido a sua falta de controle da raiva, que a faz ter surtos agressivos de repente e sua mãe a abandonou por medo da garota.

Que é justamente um dos gatilhos da menina, uma das coisas que a faz surtar, já que a mãe dela exige mudança da filha mas não muda, ou seja, falta exemplo para Benni, que tenta fugir o tempo todo dessa solidão, da raiva, mas não consegue, devido a falta de presença materna, devido a sua raiva e claro, também por culpa dela mesma.

Já que, convenhamos, Benni é mimada e sabendo que sua raiva pode ficar fora de controle rapidamente, ela usa isso a seu favor para conseguir aquilo que quer. Tanto a raiva, quanto o fato de ser mimada e um trauma da infância que a faz não deixar as pessoas tocarem no seu rosto são expostos por cortes bem feitos e pelo uso da cor rosa.

Essa cor é associada a raiva e ao trauma citado, usada pela menina nos figurinos e presente em alguns objetos que ela tem. A utilização quebra o significado da cor, que normalmente indica romantismo, ternura e suavidade. Se tem algo que Benni não é, são essas coisas.

Por mais que ela tenha potencial para isso, já que quando educada, como vemos nas cenas com Micha, um mediador escolar designado para o caso da menina, Benni muda e é aquilo que de fato ela deveria ter sido sempre, apenas uma criança de 9 anos com a vida pela frente.

Isso deixa o filme triste, pois sabemos que ela não vai se livrar dessa angústia, o que por consequência faz com que ela nunca se livre da raiva – não a raiva que ela usa para manipular os outros – mas a que ela de fato sente e não consegue controlar, essa constatação faz com que o filme seja cíclico.

Pois nada representa uma esperança concreta para Benni, a escola para ela representa sofrimento, já que as crianças tiram sarro de sua condição e a usam para fazer o mal, em qualquer lugar que a menina busca carinho ela é rejeitada rapidamente, seja pela mãe, pelos abrigos, pelas pessoas dos hospitais onde ela passa, por exemplo, nesse ultimo caso, um dos empregados que caçoa dela o tempo todo.

E como ela faz para enfrentar tudo isso? Ela fica com raiva e usa a força, seja a física ou a das palavras – através de xingamentos – e assim novamente ela está no começo de sua trajetória. Claro que ela é capaz de ficar bem e quando isso acontece no filme, o tom rosa para de ser utilizado e é trocado por cores como vermelho ou branco, mas não é isso que é o comum para ela.

Como vemos através de uma câmera fluida, que busca acompanhar os movimentos da menina na mesma velocidade, expondo através disso sua ansiedade sempre latente e os cortes acompanham essa escolha da direção. Em geral, são cortes secos, rápidos, sem perder tempo em cenas desnecessárias.

Se tem algo que “System Crasher” faz bem é falar como apesar de ser uma menina mimada, Benni não tem culpa das coisas que acontecem com ela e que, provavelmente, por mais bem-intencionadas que as pessoas que trabalham no caso dela sejam, ele nunca será resolvido.

Porque era simplesmente para ser assim, a menina não tem mãe e nem pai, ninguém vai ter paciência com ela para sempre (vide Micha e outros profissionais envolvidos no caso) e vão querer manda-lá para o mais longe que puderem pelo maior tempo possível.

Talvez fosse melhor para Benni não ter nascido, por mais que isso seja triste, essa é a única alternativa que o próprio filme mostra. Ela teria tudo para ser feliz, caso tivesse uma família que tivesse a educado da forma certa, mas o descaso faz com que ela lute o tempo todo para se livrar da angustia e da solidão, sem esquecer da raiva, claro.

Assim, entre o descaso cru e o não nascimento, talvez a segunda opção seja a melhor, pois o ciclo continuando, ela não terá perspectiva no futuro e mais cedo ou mais tarde, ela não vai mais quebrar o sistema, o sistema a quebrará.

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