27.1.20

Crítica: Açúcar

Açúcar
Imagem: Boulevard Filmes / DIVULGAÇÃO
Falar de racismo, colonialismo e relações trabalhistas não é fácil como temas abordados de formas separadas. O que “Açúcar” faz é ousado, pois o filme fala desses três assuntos ao mesmo tempo, usando diversas técnicas para aprofundá-los com calma e coesão.

Dirigido e escrito por Renata Pinheiro e Sérgio Oliveira, o filme conta a história de Bethânia (Maeve Jinkings). Herdeira do Engenho Wanderley, um engenho de açúcar que existe há anos, ela se encontra endividada, com diversos processos trabalhistas que precisa pagar e com uma fazenda que não dá lucro. Assim, ela se vê pressionada a vender, contra sua vontade, a propriedade de sua família para pagar as contas.

É interessante como a ideia de vender a casa e não querer fazer isso é algo que fala muito mais sobre herança cultural do que sobre herança física, já que ela considera a casa como parte dela e da formação dela como pessoa e não apenas um lugar para morar.

O que seria compreensível, se a personagem ao menos tratasse as pessoas ao seu redor bem. É desse ponto que o filme parte para aprofundar a noção dessa herança e tratar outros assuntos. Primeiro que a casa é toda tradicional, seja na disposição do espaço, ou nos objetos que a decoram.

Tudo é antigo, que remete ao clássico europeu que se instalou no Brasil nos tempos coloniais. Desde o lustre até o estilo das cadeiras, copos, nada é brasileiro, tudo é de fora, o que reforça o tradicionalismo da protagonista e a vontade dela de dominância usando o local onde mora.

De forma que seu aspecto físico também contribui para isso, principalmente o cabelo, que, naturalmente cacheado, ela alisa, de forma a negar sua origem e reforçar o mantenimento de costumes que não são daqui, já que os cabelos dos europeus são predominantemente lisos.

Trabalhar esse colonialismo e essa tentativa de colonizar o outro, o que não é só feito através de coisas, mas também por diálogos. Observem como Bethânia trata Alessandra (Dandara de Morais) e como a protagonista é tratada por Branca (Magali Biff) nos quais termos racistas são utilizados de forma a expor a dominância que o branco acha que tem.

Ainda assim, o filme usa essa discussão para passar a mensagem que o progressismo já é uma realidade, que chegou para ficar e que ele pode vir através da arte, já que o Centro Cultural presente na região é um dos que querem que Bethânia venda a terra, mostrando que a arte sempre representa um progresso, em alguns casos é uma evolução imediata, em outros casos é uma evolução mais demorada.

Por isso é notável como a protagonista quer evoluir e tem desejos próprios, mas, os costumes da família, que reforçam o tradicionalismo, estão entranhados de uma maneira tão forte, que ela não consegue sair daquilo que sempre esteve acostumada a ser.

Vemos isso através de minimalismos, que são usados durante todo o filme para trabalhar o que já foi abordado nessa crítica, no caso da protagonista, a vontade dela de evolução pode estar na eletricidade que ela tenta colocar na sua casa e consegue por um momento ou no vermelho da vela presente no barco que ela usou para chegar até o engenho.

Vermelho que representa amor, luxuria, desejo e que se não ficam imediatamente claros ao público pela abordagem escolhida, ficam claros pela atuação de Maeve Jinkings, que carrega o filme nas costas e faz a obra cumprir o objetivo de gerar o debate que a arte sempre gera.

“Açúcar” é um filme metafórico, mas também é um filme que serve como resumo do Brasil atual, felizmente, se a arte está ganhando na obra de Renata Pinheiro e Sergio Oliveira, talvez não seja absurdo pensar que a arte também levará ao progresso no futuro.

Veja o trailer aqui:

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