20.2.20

Crítica: Dolittle

Dolittle
Imagem: Universal Pictures / DIVULGAÇÃO
Se “Dolittle” fosse um filme de drama, ele seria comparável a “The Room”, pois ambos são tão ruins, mas tão ruins, que acabam sendo engraçados pela tentativa de fazer um filme bom e levando a sério o roteiro e argumento que foram criados.

No caso de “Dolittle” é isso que justifica a nota acima, pois, para fazer algo assim tem que ter coragem. Isso é admirável e por mais que o filme não seja bom, ele é inegavelmente engraçado, de tão bizarra que a proposta dirigida por Stephen Gagnan e escrita por ele e mais três roteiristas, Dan Gregor, Doug Mand e Chris McKay, é.

Acompanhamos a história do personagem título, interpretado por Robert Downey Jr, um médico que fala com os animais. Após sua mulher ir em uma expedição e o barco no qual ela estava afundar, ele se isola em sua casa no meio da floresta junto com seus animais (entre eles um gorila medroso, um urso polar que – isso mesmo – sente frio, uma arara, um pato e um avestruz que é usado como cavalo), até que a filha da rainha da Inglaterra, Lady Rose (Carmel Laniado), o convoca para curar sua mãe que está doente.

E, ah, ainda tem um aprendiz chamado Stubbins (Harry Collett), que acompanha Dolittle nessa aventura. Só por essa longa sinopse, deu para perceber que o filme tem muitos personagens para se aprofundar e o roteiro não faz isso, seja por ser mal escrito (porque os inimigos de Dolittle são inimigos de Dolittle?), ou porque os roteiristas simplesmente não quiseram se aprofundar.

Isso porque o filme é avulso e essa é a palavra mesmo, tudo é tão jogado e mal tratado que o público se apoia nas coisas bizarras da obra ao invés da história que ela quer contar. Ou seja, a comédia funciona porque o espectador está tão descrente que a obra vai melhorar, que ele prefere rir do bizarro ao invés de pensar na má qualidade do drama.

O fato de o filme ser jogado é algo que se deve a montagem, pois os cortes são desconexos e em vários momentos que iriam ser mostradas coisas que aconteceriam, o corte seco faz com que o público não veja a ação, o que nos leva a dúvidas sobre o que acontece nesses momentos, por exemplo, porque, quando vai acontecer uma tempestade, vem um corte e logo em seguida eles estão em uma ilha ensolarada? Como um gorila daquele tamanho conseguiu passar pelas barras de uma prisão em certa cena? E, por fim, porque fazer uma cena de uma colonoscopia em um dragão? (sim, é isso mesmo que você leu).

Esse tipo de coisa bizarra, junto com a personalidade dos animais, faz o público, como dito acima, rir pela bizarrice e não porque de fato é engraçado. Isso é uma consequência da obra não ter uma ideia boa e muito menos uma original (com exceção, claro, da colonoscopia no dragão, cena que não é spoiler, pois ficou mais famosa que o filme.), assim, a obra é clichê, previsível e o público descobre tudo o que vai acontecer logo no começo do filme.

Não posso esquecer também das cenas que fazem referência a “O Poderoso Chefão” (a cena na ilha) e a “Watchmen” que o esquilo salvo por Dolittle faz. Essas cenas tornam o filme ainda mais corajoso, até porque, são duas obras importantes para o cinema e os quadrinhos (e claro, adaptação para o cinema).

A bizarrice e o clichê ficam completos com a atuação de Robert Downey Jr, que faz uma voz estranhíssima para tentar fazer o personagem ser excêntrico, mas soa tão bobo e tão artificial, que esse é mais um dos aspectos bizarros de uma obra que se apoia na estranheza.

Portanto, é inegável que “Dolittle” tem coragem, mas, assim como “The Room” ele vai ser lembrado justamente por isso, pela bizarrice que sustenta a história durante as 1h41 de projeção.

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