10.8.20

Crítica: Dente de leite

Dente de leite
Imagem: DIVULGAÇÃO
É estranho, ao menos no começo dessa percepção em “Dente de leite”, ver que Moses (Toby Wallace) não faz nada, no que diz respeito, ao relacionamento amoroso dele com Milla (Eliza Scanlen), que ela não queira. É estranho pois estamos falando de uma relação no mínimo problemática.

A diretora Shannon Murphy faz questão de falar de todos os problemas da relação de sua protagonista, de 16 anos, com o namorado, de 23. Seja pela idade ou pela profissão de Moses (ele é traficante), o filme mostra claramente os problemas daquele relacionamento, decorrentes desses dois motivos.

Sinceramente, não que tenham muitos problemas, mas eles existem, são claros e são mais que os dois já citados, porém, ao escolher contar a história de sua protagonista não com base no relacionamento e sim com base no crescimento da personagem, a diretora acerta e faz um filme sensível sobre trajetória.

Pois, além de ser uma adolescente querendo viver, Milla tem câncer. Violonista, filha de uma pianista e de um psiquiatra, a adolescente mora com os pais e tenta ter a vida mais normal possível, até que conhece Moses, por quem se apaixona quase que imediatamente, o que representa uma preocupação séria para Anna (Essie Davis) e Henry (Ben Mendelsohn).

Assim, acompanhamos a trajetória de uma adolescente comum, ao mesmo tempo em que ela luta contra a doença. Na medida em que vamos conhecendo Milla, percebemos como ela se encontra tão ciente de sua situação, que ela não idealiza nada no que diz respeito ao seu futuro, por saber que a possibilidade desse futuro existir é mínima.

Logo, ao se ver apaixonada, ela se vê em contradição, querendo ter um relacionamento longo com Moses, ela precisa, de certa forma e dadas as devidas proporções, abandonar um pouco de suas certezas para conseguir realizar o seu desejo imediato.

Talvez seja aqui que Murphy consegue ganhar o público, pois partindo da contradição de sua personagem principal, é que a história ganha um folego que parecia próximo de se perder devido a duração do filme (duas horas). É nessa contradição que reside a sensibilidade da obra.

Na contradição também mora, por incrível que pareça, o afeto que as pessoas ao redor de Milla tem por ela. Anna e Henry tem tanta ciência quanto Milla do futuro da filha, não que eles não sofram por isso – reparem em como, principalmente a mãe, repete que tudo vai ficar bem sabendo que não vai – e eles são obrigados (de novo, dadas as devidas proporções) a aceitar Moses na vida de Milla, por mais que saibam dos problemas disso.

Da mesma forma que, com o tempo, Moses também vai adquirindo a certeza que Milla e seus pais já têm. Isso gera debates interessantes e sutis – troca de olhares entre os pais dela e ele, ele sendo cada vez mais detalhista no que diz respeito aos remédios de Milla – de maneira que vemos a adaptação de ambos quando se veem obrigados a fazer isso.

Porém, claro que o destaque é Milla. Interpretada com força por Eliza Scanlen, vemos como ela, quanto mais o tempo passa, mais ela sabe que tudo aquilo vai acabar, porém, ao contrário do que pensamos, ela não é o tipo de pessoa que por isso, quer aproveitar o máximo de tudo, na verdade, o oposto disso, vemos uma pessoa que quer viver, mas que sabe que sua intensidade tem um preço alto, tanto físico, quanto mental.

Talvez isso justifique certas escolhas de Murphy na direção, como, por exemplo, os nomes que aparecem na tela em dados momentos, indicando capítulos, que sempre se comunicam com cenas futuras e com os sentimentos dos personagens nessas cenas, não necessariamente de forma literal, como podemos ver nos capítulos “um pouco chapada” e “amor”.

Mais importante ainda, a ordem de determinados fatos, principalmente no que diz respeito ao final do filme, o qual não posso detalhar aqui, mas é uma forma muito mais forte de acabar a obra do que seria se ela tivesse acabado em uma outra cena, que também não posso detalhar aqui.

Pois com essa escolha da diretora, vemos como o amor daquela família é forte o suficiente para que eles sigam em frente e essa força não vêm deles, mas vem de Milla e da certeza de algo inevitável, mas não necessariamente ameaçador, já que para a protagonista, assim como para várias outras pessoas, o inevitável representa a paz e essa paz é algo que Milla, assim como todos nós, merecemos alcançar.

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