28.10.20

Crítica: Isso não é um enterro, é uma ressureição

Isso não é um enterro, é uma ressurreição
Imagem: DIVULGAÇÃO

Todas as pessoas já tiveram ou terão que lidar com a morte, seja a do outro ou a sua própria, a morte é a certeza da vida, o fim do ciclo, o fim que representa, para alguns um recomeço e para outros, apenas o fim de algo que gostavam de fazer, que era viver.

Mas, com a solidão e a sensação desta, chega uma hora em que a morte pode ser desejada, a ponto de se tornar não apenas uma vontade, mas uma necessidade. Esse é o caso de Mantoa, protagonista do filme “Isso não é um enterro, é uma ressurreição”, de Lemohang Jeremiah Mosese, que após ver seus filhos, netos e marido morrerem, sendo a última de sua família, ela deseja a morte para se reencontrar com eles, de forma que a realocação dos moradores de sua vila para outro local, devido a construção de uma represa, se torna uma esperança.

Esperança para quem tem raiva da vida, não que ela sempre tivesse sentido essa raiva, mas na fase atual da vida de Mantoa, tudo o que ela sente é raiva, raiva do destino que fez ela ver todos os seus entes queridos morrerem pouco a pouco, raiva de não ter sido ela aquela quem morreu e principalmente, raiva de não poder ter feito nada para salvar as pessoas que amava.

De forma que para ela, a morte é um recomeço, não é um fim de ciclo, é uma chance de se livrar do peso de ser a única que ficou que se lembra do passado e que o valoriza, que entende que lembrar dos mortos é uma forma de manter eles vivos e principalmente, é uma forma de estar morta de fato e não apenas se sentir morta.

Isso também representa um sentimento de inveja daqueles que morreram, não apenas os membros de sua família, mas todos aqueles nas covas do cemitério da vila onde ela sempre (aparentemente) viveu. Inveja porque, como já dito, ela está cansada e cada vez mais ela tem motivos para ficar assim.

Seja a saudade ou a política que é construída com a ajuda do desrespeito ao passado, pois a construção da represa não sofre nenhum tipo de represália, o que leva ao apoio dos habitantes da vila a realocação, o que faz com que as pessoas que só pensam no lucro, continuem tendo sucesso.

Mas, no fim de tudo, Mantoa busca a sua ressurreição, que virá, mais cedo ou mais tarde, como um personagem diz em certo momento do filme “no fim, acabamos onde começamos e recomeçamos. Novos sonhos, esperanças, ambições”.

Mantoa terá seu recomeço, outros sonhos e esperanças, cumprirá suas ambições e conquistará a sua merecida ressurreição. Logo, vemos que de fato o filme de Mosese não é um enterro, por mais que seja triste e que fale dele, é mais sobre como podemos encontrar esperança na única certeza que temos na vida, principalmente quando se está cansado de viver e mais ainda, quando se sente o peso de ser o último que sobrou.

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