29.10.20

Crítica: Nossa Senhora do Nilo

Nossa senhora do Nilo
Imagem: DIVULGAÇÃO

Levando em consideração que vivemos em um momento que busca esquecer o passado a todo custo, de forma a colocar nas pessoas pensamentos impossíveis de aguentar, o filme de Atiq Rahimi, “Nossa senhora do Nilo”, se torna naturalmente importante, pois conta uma história ruandesa que precisa ser lembrada.

Mais do que precisa ser lembrada, ela precisa, para a maioria das pessoas (inclusive eu), ser contada pela primeira vez, pois o modelo de educação eurocêntrico dominante no mundo e que as personagens recebem na escola que dá título ao filme, faz com que, como uma professora diz durante a obra, a África seja a geografia e a Europa, história.

Acompanhamos um grupo de garotas que estuda nessa escola, um internato religioso, durante o conflito entre Tutsis e Hutus, que teve como fim (não é spoiler, é história), o exército ganhando o conflito e assumindo o poder no país. Nessa escola vemos garotas que são filhas de pessoas poderosas do governo Tutsi (vigente na época) como as protagonistas.

O filme se torna uma jornada pelo passado, pois vemos nada mais, nada menos, do que um documento histórico de fato, claro, todo filme é um documento de sua época, como diria Eric Rohmer (diretor francês), mas, “Nossa senhora do Nilo” é uma forma de conhecermos mais sobre um local que pouco sabemos.

E que deveríamos saber mais, pois somos muitos mais próximos dos africanos do que nos estadunidenses em termo de cultura e história. Assim, é inevitável não pensar que nós, brasileiros, como um povo, fomos educados da mesma maneira que aquelas garotas são na escola, para sermos objetos, para desconhecermos a nossa própria história e trajetória.

Por mais que ter essa consciência e aprender seja ótimo, esse é o único ponto bom que o filme pode nos oferecer, porque, no mais, vemos uma obra vazia, que falta algo para ser completa. O conflito nunca é aprofundado, o que poderia ser algo bom, caso as histórias das meninas fossem aprofundadas, o que também não acontece, ou seja, nas 1h30 de filme o espectador fica esperando algo acontecer, algo começar.

Isso faz com que o filme se torne maçante em certos momentos, ao mesmo tempo em que é bonito visualmente e que tem nas meninas e nas cenas em que elas estão juntas nas instalações da escola, os melhores momentos do filme, pela simplicidade das cenas e das relações entre elas, mesmo em um momento tão difícil para todas ali, que, se não eram reprimidas em casa, eram reprimidas na escola, que também era o único lugar onde elas conseguiam ter um momento de paz.

“Nossa senhora do Nilo” não é um filme ruim, mas é um filme que poderia ser mais, que tem um potencial muito grande para se tornar algo que infelizmente não se torna, o que faz a obra ser importante pela história que é contada, mas não pela formula que usa para fazer isso, que é o mais do mesmo.

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