12.10.20

Crítica - Mães de verdade

Mães de verdade
Imagem: Califórnia Filmes

Criar um filho, eu imagino, é ter algo para chamar de “meu”, mesmo que não seja de fato e no caso de uma mãe, novamente, eu imagino isso, já que não tenho lugar de fala para tal, essa coisa do ter algo, do sentimento de “meu” é muito maior, por motivos óbvios.

“Mães de verdade” , dirigido e escrito por Naomi Kawase, fala sobre isso, por mais que não me aprofundarei no assunto (pois, como dito, não tenho lugar de fala, sou homem), o filme fala sobre maternidade, ao abordar duas mulheres, uma que adotou um garotinho chamado Asato, após descobrir que seu marido é estéril e a outra é a mãe biológica do garoto, que volta a vida dele de forma repentina e causando surpresa na mãe adotiva. 

Kawase usa esse sentimento do “meu” de forma a estabelecer o filme, ao mostrar que o sentimento de ter um filho é igual do lado biológico e do lado adotivo, independente dos problemas que ambos os lados tiveram em suas trajetórias, que a diretora escolhe contar de forma detalhada ao longo de duas horas e vinte de projeção. 

Talvez tenha sido essa escolha o que mais prejudicou o filme. Aliada com a estrutura de montagem que foi utilizada, a obra parece mais longa do que é, o que pode fazer com que o público se sinta entediado. A montagem alterna entre as histórias das duas mães e até em quando elas ocorrem, de forma que o espectador tem que ficar atento para não se perder entre uma e outra.

Pois não há algo claro que Kawase usa para expor a passagem ou a volta de tempo, a não ser as personagens e os cortes secos, então, pode ficar difícil para que a identificação de momento no qual a história se passa se torne algo natural. Ainda assim, é notável como é fácil o espectador sentir empatia pelas personagens e como a diretora aborda uma série de assuntos.

Entre esses assuntos, merece destaque o da educação sexual, ou no caso de Hikari (a mãe biológica) o da falta dela. Ela nunca recebeu conselhos sobre sexo, nunca falaram sobre com ela, nunca a ensinaram métodos preventivos, então o que aconteceu com ela foi a consequência de um sistema que limita mulheres a objetos e que causou na personagem uma série de coisas evitáveis, caso ela tivesse tido algum tipo de educação nessa modalidade.

Pois, a educação sexual é ensinar a reconhecer o que pode e o que não pode (no caso de Hikari, a relação dela foi puramente consensual com o namorado, vale destacar), de forma que a mulher reconheça qualquer abuso que tenha sofrido, da mesma forma que evita a gravidez indesejada numa tenra idade, não é nada difícil ensinar a se prevenir.

Kawase mostra como a falta disso faz parte de um sistema, ao mesmo tempo que usa esse sistema para humanizar Hikari, que representa mulheres que passaram pela mesma coisa que ela, assim, a obra pode ser considerada como uma crítica ao modelo atual de educação.

Por esse motivo e pela empatia que a diretora consegue gerar, “Mães de verdade” não pode ser considerado um filme ruim, porém, ele poderia ser bem melhor caso a estrutura e a montagem fossem mais adequadas para o filme que a diretora quis fazer e pelo tempo que ela quis que o filme durasse.

Esse texto faz parte da cobertura da 44 Mostra Internacional de São Paulo

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