15.10.20

Crítica: A metamorfose dos pássaros

A metamorfose dos pássaros
Imagem: DIVULGAÇÃO

Ontem, um dia antes de ver “A metamorfose dos pássaros”, disse a minha mãe que achava que nunca conseguiria descrever em palavras o amor que sinto por ela. Logo, foi com certa alegria que ouvi, na voz da família da diretora e roteirista do filme dessa crítica, a frase “Não era do tamanho que via, era do tamanho que sentia”.

Essa frase é a essência do que Catarina Vasconcelos passa durante as uma hora e quarenta minutos de projeção, pois o que vemos no filme é o amor de uma mãe em relação aos filhos e em relação ao marido e como, por mais que a metamorfose de todos eles seja algo inevitável, o tamanho daquilo que se sente é maior do que o tamanho daquilo que se vê, ou melhor, que se demonstra.


Pois a questão estar no demonstrar, entre as metamorfoses pelas quais todos nós passamos, aquilo que sentimos para que possamos fazer da vida um caminho um pouco mais pacífico na medida do possível e, principalmente, menos solitário, pois a solidão faz parte da vida.

Assim, pelo menos para mim, foi inevitável não associar a trajetória daquela família a uma trajetória de solidão e de luta constante contra esta. Concentrada na figura da chefe familiar, Beatriz, que apesar de ter um marido e de ele ser presente, devido ao trabalho (ele é marinheiro), não pode estar lá sempre e como se luta contra a solidão quando esta é tão presente em várias formas, inclusive na carreira da pessoa que se ama?

A escolha daquelas pessoas não foi ir contra a solidão, mas abraça-la e abrandar esse sentimento da forma que era possível, o que talvez, de um ponto de vista técnico, seja exposta pela narração em off que sempre trata o amor e a solidão como um único sentimento (o que são, ao meu ver) ao mesmo tempo em que isso é unido com aquilo que vemos, como os objetos e as memórias das pessoas envolvidas naquela trajetória.

Através desses objetos que o público é capaz de perceber como Beatriz sofreu e como ela lutou contra esse sofrimento através do amor que sente pelos filhos e pelo marido, porém, principalmente, pelas lembranças, geradas pelos objetos, como o quadro da casa, os selos das cartas que o marido mandava e, claro, a natureza como um todo, mas com destaque para o mar e para as sementes que Beatriz guardava.

Sementes físicas, mas também metafóricas, pois ela plantou sementes nas pessoas que amava e vice versa. É nesse vice versa que temos o ponto alto (entre vários pontos altos) do filme, pois se não fossem as sementes plantadas pela avó, a neta nunca faria um filme desse em homenagem a própria mãe e a seu pai.

Logo, voltamos aquilo que eu falei no primeiro paragrafo e acredito que todos os filhos e filhas que tenham o mínimo de caráter sintam isso, nunca seremos capazes de demonstrar o amor que sentimos para nossas mães. Como o filme disse, nossas mães estão em tudo e nós somos a principal semente delas e fazemos parte delas por mais que sejamos indivíduos próprios e com características particulares.

Não somos do tamanho que nos vemos, somos do tamanho que nos sentimos e por mais que a solidão sempre esteja presente, mesmo em uma relação de amor, a metamorfose dos pássaros pela qual nós passamos, faz com que Catarina faça parte da mãe dela nós, assim como nós fazemos parte de nossas mães.

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