9.11.20

Crítica: Cabeça de nêgo

Cabeça de nêgo
Imagem: DIVULGAÇÃO 

Você já parou para pensar que, caso não seja branco, hétero e no mínimo de classe média alta, você não terá acesso a tudo aquilo que precisa e a tudo que deseja? Caso sua resposta seja não, eu fico, sinceramente, feliz por você, porque para a maioria da população brasileira, predominantemente negra, a resposta é sim, que eles pensaram nisso e mais, provavelmente não tem acesso ao básico.

Algo básico é educação e é obvio que não querem que nós, negros, tenhamos acesso a ela e aí o que resta é a luta por algo que é um direito de todos. Dirigido e escrito por Déo Cardoso, Saulo (Lucas Limeira) é o protagonista de “Cabeça de nêgo”, e é um personagem que na real, não é um personagem, é um representante dos vários alunos reais, negros e negras, que encabeçaram o movimento de ocupação as escolas, em busca de melhores condições de estudo.

Até porque, se sua escola está cheia de ratos, você sofre racismo dentro da instituição e os professores te consideram culpado por isso, não resta alternativa a não ser ocupar, o que é justamente o que Saulo faz e o que os espectadores acompanham por uma hora e vinte de projeção, vemos um pouco mais do cotidiano de quem quer mudar o sistema e de quem quer que ele se mantenha assim.

Esse é, sem dúvida, o ponto que dá potência a obra e que faz com que o público fique totalmente imerso na narrativa, pois ou você está do lado de Saulo e seus colegas de luta, ou você está do lado do diretor da escola e secretário de educação, não há como se manter imparcial em meio a história, porque não há como se manter imparcial em meio a injustiça.

Ao mesmo tempo em que não há como não ficar triste, quando o próprio sistema faz com que o crime fique mais atrativo do que a educação, o que apenas serve para perpetuar o racismo de nossa sociedade e dar vazão aos pensamentos das pessoas que concordam com esse tipo de coisa, como vemos nos professores que concordam com o uso da força policial.

Porém, não dá para dizer que tudo ali é luta, porque é lindo ver, que por mais que façam parte da luta, as figuras nas quais Saulo se baseou são a inspiração e a beleza de pessoas que nós precisamos nos apoiar. Angela Davis, Abdias do Nascimento, Carolina Maria de Jesus, Nelson Mandela, Lélia Gonzalez, é bom ver um filme no qual o protagonista tem orgulho e sabe que está do lado certo, por estar do mesmo lado dessas pessoas.

Assim, é importante que reparemos também como Cardoso foca nas relações, em Saulo com a mãe, Saulo com sua amiga Clarisse, na jovem colega deles que está grávida, na professora que apoia e ajuda os alunos como pode. No fim, claro que é importante focar na luta, mas também é importante focar em quem faz a luta com a gente.

Porque, quem fica no final são esses, são as pessoas e quem vai ocupar escola com você, te ajudar a panfletar, ou apenas estar do seu lado quando necessário são essas mesmas pessoas e por isso “Cabeça de nêgo” é importante, porque faz a gente lembrar que precisamos saber quem está com a gente e não focar no inimigo.

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