2.11.20

Crítica: Não há mal algum


Não há mal algum
Imagem: DIVULGAÇÃO

Pensar no mal e no que é o mal, no que é ser mal, é algo que pode levar a inúmeras discussões sobre as variações do que é fazer algo ruim, seja para si mesmo ou para o outro. Logo, por mais que o cinema consiga falar sobre todos os assuntos, falar sobre o mal é algo que pode ser considerado difícil.

Mas não é difícil para Mohammad Rasoulof, diretor e roteirista de “Não há mal algum”, no qual o espectador acompanha quatro histórias diferentes e com personagens diferentes (segmentos independentes) mas todas com um assunto em comum, o mal e suas variações dentro da sociedade como um todo.

É interessante como o ponto de ligação entre as quatro histórias é o mal, mas também o sentimento do mal e o ato de fazer algo ruim, como, por exemplo, esconder coisas de pessoas importantes. O que faz com que as quatro histórias sejam sempre sobre a morte, seja de forma direta ou indireta.

Se a primeira história é retratada como uma trajetória extremamente comum, é porque a maioria de nós, como pessoas dentro de um sistema, somos extremamente comuns. Acordamos, comemos, nos limpamos, trabalhamos, dormimos e após isso voltamos ao inicio de nossa rotina.

Mas, assim como a segunda história, a primeira história serve muito bem como uma crítica a politica militarista do Irã, que obriga os homens a prestarem serviço militar por um tempo, em um regime que, como os próprios personagens do filme dizem, pode ser considerado como uma prisão.

Ao mesmo tempo em que a segunda história aprofunda a questão do ato de matar, de cumprir ou não uma obrigação quando esta vai contra os seus próprios princípios e expõe como o medo está presente em todos aqueles homens. Reparem na expressão deles a cada segundo durante aquela fuga, mesmo naqueles que são, aparentemente, apoiadores do regime.

Então, a segunda história é sobre liberdade, da mesma forma que a terceira, por mais que esta seja muito mais sobre o mal causado e criado por nós mesmos, dentro de nossas cabeças, do que sobre um mal físico propriamente dito, porém, se a trajetória daquele casal mostra algo, é sobre como as relações interpessoais são afetadas por politica de forma inevitável, mesmo que algumas pessoas prefiram ignorar isso.

Logo, a quarta história é também sobre algo mais mental, sobre a morte do desejo de viver e sobre uma pessoa que pensa ter o conhecimento pleno e total de sua vida, mas que na verdade, nem começou a viver. Com isso, é possível perceber como fazer aquilo que se quer, dentro do possível, é algo essencial para cada um de nós.

O que é a mensagem que Rasoulof quer passar de fato com o seu filme, para que nós, mesmo que vivamos em um sistema opressor, façamos aquilo que queremos, para que não morramos por dentro mesmo estando vivos. “Não há mal algum” não nega a existência do mal, mas mostra como a sociedade precisa conviver com ele, inclusive com o mal que vive em nós.

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