21.12.20

Crítica: A Febre


A Febre
Imagem: DIVULGAÇÃO 

A maior febre que alguém pode ter é a de não ser você mesmo. Esse tipo de coisa causa problemas inimagináveis, mas, quando se vive em um país como o Brasil, isso acontece com mais frequência do que se imagina, o que gera solidão e inevitavelmente, tristeza.

Justino (Regis Myrupu) é um personagem triste, porém, mais triste ainda é o fato que o protagonista de “A Febre”, dirigido e escrito por Maya Da-Rin não é apenas o protagonista desse filme, mas, na verdade, é uma representação de vários indígenas que passam pela mesma coisa que ele passa.

Vigia do porto da cidade, pai e indígena, acompanhamos Justino enquanto ele tenta viver sua vida e cumprir sua rotina, com o passar do tempo, ele passa a ter uma febre com certa frequência e começa a tratar isso em seu próprio ritmo.

Não dá para negar que o filme não vai agradar todos os públicos, pois devido ao ritmo adotado pela obra e pela inercia da projeção, pode ser que a obra se torne difícil para muitos. Inércia representada seja pela falta de “ação” (entre aspas porque a falta de ação é uma ação) e pelos planos abertos, onde vemos Justino sempre engolido pelo mundo a seu redor.

Porém, Da-Rin usa isso como ferramenta, pois, a vida de Justino é tediosa, rotineira, sem nenhum tipo de encanto, justamente porque ele, para conseguir viver, teve que abandonar seus costumes e se embranquecer.

Embranquecimento que vemos de diversas maneiras, mas o principal é o emprego dele, pois ele passa por uma série de situações, diariamente, que refletem como a vida de uma pessoa não branca é difícil em um país racista e é isso que causa a febre do título nele.

A necessidade de ter um emprego o faz ser falso, o que o faz ir contra sua própria cultura para conseguir se alimentar todos os dias, o que o leva a uma crise mental séria, onde caso ele não faça algo para mudar isso, algo que leve de volta para quem ele é, provavelmente o sistema o matará.

Ao mesmo tempo em que sua filha é bem sucedida dentro dessa sociedade, o que o leva a outro ponto, pois, se ela conseguiu se adaptar, ele tem que pelo menos tentar fazer isso, caso contrário provavelmente a perderá, o que o leva a solidão e a outro tipo de falsidade, o de não se entender como pessoa, mas na verdade, ter se tornado uma entidade, no caso, a de pai.

Mas, é notável como Justino, apesar de tudo isso, é amoroso com as pessoas, gentil e é essa a mensagem que fica de “A Febre”, é possível ser gentil, é possível ser bom, mesmo quando, independente do motivo, nos sentimos muito sozinhos. Isso não vai fazer a solidão passar, principalmente uma solidão que é gerada por preconceito e por não poder ser quem é para sobreviver, mas, ao menos, é possível ser bom com quem está ao nosso redor.

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