7.8.21

Fantasia Festival: Carro Rei

Carro Rei
Imagem: DIVULGAÇÃO

Texto que faz parte da cobertura da edição 2021 do Festival Fantasia

This critic is part of Fantasia Festival 2021 coverage

A ideia de um carro que fala com as pessoas não é algo inédito no cinema. Em 1983, “Christine”, de John Carpenter, era lançado e a cada vez que o tempo passa, esse filme se torna mais conhecido e mais procurado pelas pessoas que ainda não o viram e claro, procurado por quem já viu para ver de novo.

Sendo assim, “Carro Rei”, de Renata Pinheiro, é um filme que não surpreende pela ideia de um carro que fala, mas sim, pelas várias ideias em torno disso, que são aquilo que faz o filme andar (risos). O personagem principal, Uno, é um jovem estudante que fala com carros, principalmente com um carro em específico que faz parte da frota de táxis de seu pai, justamente um uno. Após reformar esse carro com seu tio Zé (Matheus Nachtergaele), eles passam a reformar carros antigos com o objetivo de acabar com a hegemonia dos carros mais novos, devido a uma lei que proíbe veículos mais velhos de circularem.

Pela última linha do paragrafo acima já é possível perceber o foco, a luta contra o capital, usando um dos maiores símbolos deste como ferramenta. Nada é mais representativo da riqueza visual do que um carro e quanto mais caro o modelo, melhor, mais imagem de sucesso é passada para as pessoas. Não a toa, os carros que são próximos do protagonista são antigos, as pessoas próximas a ele tem nomes de carros antigos ou peças ainda utilizadas, mas obsoletas (Elba, Zé Macaco).

Isso expõe que o protagonista não é rico e que por mais que o pai tenha uma frota, ela é composta de carros antigos. Logo, a lei que proíbe o uso desses carros é algo que afeta diretamente a vida das pessoas, principalmente quando elas, como é o caso de Uno, precisam do carro para tudo (por locomoção, trabalhos na faculdade). Assim, a ideia de protesto do uno com qual o protagonista fala surge de algo natural, é uma rebelião contra a obsolescência.

Que é algo que chega para todos, inclusive para as pessoas e isso é mostrado na “evolução” dos adeptos do protesto. Porém, se em “Christine”, o carro matava porque gostava de matar, pura e simplesmente, ou seja, era um motivo plausível dentro daquela intangibilidade, em “Carro Rei”, tudo soa muito vago, por mais que as razões também sejam reais.

Porque ora, de certa maneira, a revolução do Uno (carro), prejudicou também as pessoas que não têm nada a ver com isso e dentro do filme, da ideia da diretora, não há nada que leve a crer que essas pessoas deveriam ter sido prejudicadas, ao contrário dos ricos que usam carros luxuosos (cena em que o protagonista convida um desses carros a se juntar a eles), assim, talvez o alvo tenha sido o errado nesse caso.

É interessante como uma das soluções encontradas para tudo aquilo, é justamente o respeito ao meio ambiente. Para isso a personagem de Amora é importante, é dela que sai o uso da bicicleta como ferramenta de luta e do respeito a terra (cena da plantação), mostrando como a conservação da natureza é um ato político, mas, novamente, é algo que fica vago dentro da ideia principal (de revolução motorizada), principalmente levando em consideração que ninguém no filme andou de bicicleta até os quinze minutos finais.

Ao contrário de “Açúcar”, que traz na metáfora do espaço uma discussão sobre capitalismo e herança, “Carro rei” tenta fazer isso usando o símbolo que é um carro e até consegue em certo ponto, mas o excesso de ideias (citei apenas duas para evitar spoilers) não desenvolvidas, torna o filme um tanto quanto vago, por mais que funcione como porta de entrada para o cinema nacional.  

Texto que faz parte da cobertura da edição 2021 do Festival Fantasia

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