13.10.21

Mostra 2021: Má sorte ou pornô acidental

Má sorte no amor ou pornô acidental
Imagem: DIVULGAÇÃO

É no mínimo interessante e até arriscado, que se faça um filme de comédia (com cenas de sexo explícito), nos tempos atuais e em um país conservador como a Romênia. Talvez, Radu Jude já tivesse a ideia desse filme há tempos e apenas o ano de lançamento veio a calhar com o momento atual e adaptações foram feitas, mas, ainda assim, é interessante.

“Bad luck banging or loony porn” acompanha Emilia, uma professora de história que teve um vídeo de sexo com seu marido publicado na internet. Esse vídeo chega nos pais de seus alunos que exigem uma reunião para decidir se a demitem da escola ou não. O filme se desenrola em torno desse vídeo e da sociedade atual, usando a pandemia como um de seus temas.

Fica clara a intenção de Jude em contar uma história que faz uma crítica, usando a comédia como ferramenta, à sociedade romena. Seja através da rotina de Emilia – que acompanhamos na primeira parte das três do filme -, ou usando o segundo ato, que é basicamente um dicionário com termos relacionados a história do país ou com palavras que o diretor acha engraçadas.

Através de imagens de arquivo e vídeos de celular, esse ato do filme é o mais interessante e é onde vemos a ideia de Jude de fato funcionar, ou melhor, “funcionar”, porque não dá para saber o que é ironia e o que é sério dentro das explicações dos termos não históricos e tem coisas que as pessoas podem achar de mal gosto ou desnecessárias para a obra.

Mas, ainda assim, é melhor esse ato do que os outros dois. O primeiro ato (que começa após vermos o vídeo vazado integralmente) é a rotina de Emilia, que percebemos ter mudado completamente depois do ocorrido e o terceiro ato é a reunião de pais na escola, onde vemos um retrato daquela sociedade, que é muito próxima a sociedade brasileira.

Há todos os tipos de pessoas naquela reunião, inclusive o espectador é capaz de prever o comportamento das pessoas em relação a postura deles caso eles fossem brasileiros e não romenos. Ou seja, vemos que o pensamento atual que domina muitas das bolhas sociais são mundiais e não ocorrem apenas aqui, o que torna tudo mais sério.

Por ser um aspecto sério, não sei até que ponto o timing foi bom para lançar um filme de comédia que aborda isso. Nada daquilo é engraçado, uma mulher teve a privacidade violada e a reunião serve mais como humilhação pública do que qualquer outra coisa, as pessoas representadas ali existem no nosso dia a dia e fazem parte de tudo o que está acontecendo e a comédia não acrescenta em nada ao filme a não ser um riso envergonhado quando a obra acaba.

Falar no final da projeção que “o filme é uma piada” é necessário ao mesmo tempo que é um paliativo para possíveis reações negativas que a obra terá no futuro. Esse pensamento também se encaixa nos três finais que a obra apresenta (isso não é spoiler). Se o timing foi errado é algo que apenas saberemos no futuro, mas, talvez nem tenhamos futuro, o jeito é pensar no agora.

 

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