18.10.21

Mostra 2021: Um herói

Um herói
Imagem: DIVULGAÇÃO

Em dado momento de “Um herói”, novo filme de Asghar Farhadi, eu lembrei de seu – possivelmente – melhor trabalho, “A separação”, obra na qual fiquei o tempo inteiro me perguntando como toda aquela situação não tinha chegado, em nenhum momento, até o conflito físico entre alguns dos personagens homens. Para mim, esse confronto era inevitável e felizmente Farhadi não usou essa solução para sua história.

No novo trabalho do diretor iraniano, temos sim, brigas físicas, mas, ao contrário do filme de 2011, eu pensei que a situação apresentada pelo diretor era facilmente resolvível através de uma conversa. Isso porque é algo bem simples, que foi tornado complexo pelas pessoas envolvidas. Rahim, um homem que saiu temporariamente da prisão e foi ver sua família, acha uma bolsa com moedas de ouro e após tentar vender o conteúdo (e falhar), ele decide devolver a bolsa para a dona. Ao devolver, o homem fica famoso por ter sido, pura e simplesmente, honesto.

O que revela duas coisas: a honestidade está em falta e como as pessoas criam, frequentemente tempestade em copo d’agua. Claro, Rahim poderia ter pagado sua dívida com o dinheiro (dívida essa que é o motivo dele estar preso), mas escolheu, após falhar na venda do ouro e interpretar isso como um sinal, fazer o mínimo e retornar a bolsa para sua dona.

Digo “fazer o mínimo”, pois Farhadi faz algo que sempre fez em seus filmes (com exceção de “Todos já sabem”), ele mostra como pessoas podem ter pontos de vista diferentes e estarem certas em suas opiniões sobre o mesmo assunto. Isso soou centrista, mas não tem como o espectador culpar o credor de Rahim por querer o dinheiro de volta, da mesma forma que o protagonista usar o filho pequeno como forma de comover as pessoas e fazerem essas sentirem dó dele, é algo no mínimo questionável.

Farhadi joga essas opiniões conflitantes em seu filme de maneira organizada, onde assim como em uma situação na vida real, os fatos e opiniões não são expostos ao mesmo tempo, cada pessoa tem sua própria agenda e nunca põe o interesse do outro acima de seus próprios. É uma competição socialmente aceita por todos nós, que competimos basicamente o tempo todo.

Para perceber isso, é só prestar atenção em como a direção da prisão muda com Rahim após a devolução da bolsa e da “fama” dele, como a associação que media sua condicional também muda após uma série de fatos envolvendo dinheiro e como Rahim tenta se manter firme em meio a tudo aquilo.

Vemos que ele acredita em sua honra e honestidade, quando ele se vê amparado por várias pessoas (inclusive as citadas acima) ele acha que é o único certo, então, quando a situação muda e ele percebe que cada um dos envolvidos tem interesses próprios, Rahim parece ter dificuldades de adaptação a nova situação apresentada.

Esses interesses próprios, assim como as opiniões conflitantes e certas citadas acima, também são válidos. A associação mediadora não pode ajudar Rahim se esse impede (involuntariamente) eles de fazerem seu trabalho (ajudar presos e suas famílias), da mesma forma que a direção da prisão, que estava em busca de fama, não pode largar a administração da penitenciaria, para, pura e simplesmente ajudar o protagonista.

Da mesma maneira que o credor precisa ser pago, porque sem o dinheiro, como é que ele vai viver e pagar as contas? No fim, ter seus próprios interesses não é o problema, o problema é quando eles entram em conflito. Pensando em “A separação”, a briga é apenas argumentativa, em “Um herói” essa briga avança para o físico, quando o desespero dos envolvidos é tão forte, que eles externalizam isso do único jeito que julgam possível.

Assim, ficamos pensando o tempo inteiro em quem está certo ali e principalmente, qual lado assumir, sentimento despertado em outros filmes do diretor. Ao que tudo indica, “Um herói” pode ser o retorno de Asghar Farhadi aos bons trabalhos, após “Todos já sabem”, sabíamos que o próximo filme seria melhor. Agora, é esperar o próximo. 

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