28.11.16

Crítica: A Chegada



A empatia é o que move o mundo, ou ao menos é o que deveria movê-lo, nos, como humanos, temos que refletir no parâmetro de que o bem e o mal é uma via de mão dupla, tudo o que usamos hoje para trabalho ou lazer é proveniente da guerra, seja da batalha física propriamente dita ou da guerra ideológica, tudo, tudo mesmo, é proveniente da guerra, ou seja, algo mal que gerou coisas que podem (ou não) serem usadas para o bem.

Isso acontece também com a comunicação, com a fala, leitura e com o audiovisual, é justamente esse aspecto que a linguista Louise Banks quer passar para os militares em “A Chegada” dirigido por Denis Villeneuve. O filme conta uma historia baseada no conto “Historia da sua vida” de Ted Chiang, aliens em suas naves pousam em vários pontos do planeta Terra, a dra.Banks é levada pelo exercito americano para fazer a tradução do que os extraterrestres dizem.




O filme nos leva a uma reflexão que é necessária, se nós soubéssemos o que vai acontecer no futuro, mudaríamos alguma coisa? Se, finalmente, conseguíssemos responder as perguntas “Quem somos?” e “Para onde vamos?” o que nós faríamos logo em seguida? A obra traz o que seriam respostas possíveis, a maioria das pessoas faria guerras, cometeria crimes e continuaria propagando o ódio por aí, é exatamente isso que grande parte da população mundial faz em relação aos alienígenas. Louise quer apresentar outro ponto, ela quer fazer com que a relação entre os humanos e o ETs seja amigável e seja mutua.

Esse outro ponto, essa justaposição, é o que Villeneuve usa para ilustrar sua historia, usando da câmera subjetiva (em primeira pessoa), o filme flui de forma fácil, vemos como Louise ve, então, quando ela está vendo os aliens a distancia, nós o vemos a distancia também, de forma embaçada, e ai, com a aproximação dela os visitantes vão adquirindo nitidez e fisicalidade. Além disso, sentimos o que a protagonista vivida pela excelente Amy Adams sente, então, a cada vez que ela ve a filha dela, vemos as duas brincando e conversando felizes e sentimos essa felicidade, porém, quando descobrimos que a garota está morta devido a um câncer, e logo em seguida de vermos Louise abraçando a filha e sorrindo, a vemos abraçando o corpo morto da garota e chorando sentimos a tristeza e o sofrimento daquela mãe.

Os pontos opostos dominam a obra, e essa empatia criada pela câmera subjetiva é reforçada por outros aspectos, um deles é o som, não apenas sentimos o que a doutora sente, mas, escutamos na medida em que a mulher escuta, então, quando ela entra em um helicóptero e não coloca os fones de ouvido, ouvimos aquele barulho altíssimo da hélice e do veiculo se movimentando, quando, a doutora entra no OVNI escutamos apenas sua respiração apreensiva e acelerada, enxergamos de forma meio turva e sentimos o ritmo das passadas em direção aos seres desconhecidos que se encontram ali. Os movimentos de câmera, bem controlados, ajudam no ritmo da obra, assim como a montagem, que apesar dos contrapontos de historia citados acima, nunca deixa a projeção confusa, e ainda acrescenta elegância e tensão enquanto mostra a raça humana se autodestruindo. Essa forma não linear de contar a historia vai de acordo ao que os aliens querem passar, ao descobrir como a fala deles não se assemelha com a escrita, Louise passa a ver o mundo de outra maneira, com a câmera subjetiva e a montagem, tudo isso é facilmente identificado pelo espectador.

A premissa que uma grande ficção cientifica parte é a de algo que gere uma reflexão no publico e a de que esse algo possa realmente acontecer, “A Chegada” então se encontra no mesmo seleto grupo de "2001", "Contato" e "Solaris", pois este longa de Villeneuve usa essa premissa com maestria e esse filme ficará na historia para sempre, se tornando um clássico e um paradigma para o mundo cinematográfico.

Pois, veja bem, uma obra que mostra de forma claríssima o momento de propagação de ódio que estamos vivendo, que faz uma reflexão sobre isso, e, ainda expõe que a empatia move o mundo, merece um lugar ao lado de filmes clássicos. Sendo assim, Denis Villeneuve agora não é apenas um diretor prolifico na maioria dos gêneros, ele se torna alguém a ser observado, porque a linguagem cinematográfica pode ter uma mudança após este “A Chegada”.

E ai, se você soubesse o que vai acontecer no futuro, você mudaria algo?

P.S: A sequencia final do filme, os últimos 15 minutos, é talvez a sequencia mais bonita na ficção cientifica desde aquela da morte do HAL 9000 em 2001 de Stanley Kubrick. É de chorar.

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