21.10.17

Crítica: Fluxo de pessoas e sentimentos: “Human Flow”

Human Flow
Imagem: Divulgação

No dicionário, a palavra “Fluxo” significa fluência, algo continuo, corrente, correnteza. Ou seja, é alguma coisa com ritmo, continuidade e há vários aspectos de nossa vida e de fatores influenciadores dela que são fluidos, ritmados, contínuos.

Assim como as águas do oceano onde barcos cheios de pessoas navegam, como as caminhadas em direção as fronteiras, duros trajetos percorridos por gente desejosa de uma vida melhor, longe das guerras, fomes, doenças e maldades geradas por outros países, os conhecidos poderosos.


Essa é a realidade dos refugiados, vindos dos lugares mais diversos, países localizados no continente africano e no oriente médio, como Quênia, Nigéria, Somália, Síria, Afeganistão, Iraque. Eles não têm espaço na mídia, quase não tem voz na sociedade e infelizmente, não tem para onde ir.
Ai Weiwei, artista plástico chinês e diretor de documentários, decidiu dar a voz necessária e filmou durante um ano, em países diferentes (os destinos procurados pelos refugiados), os acampamentos destes e algum dos seus países de origem, o cotidiano dessa gente, mostrando trajetórias, rotina e fazendo o espectador escutar as suas respectivas vozes.

“Human Flow – Não há lar se não há para onde ir” (Human Flow = Fluxo Humano), é um documentário excelente: forte, necessário, triste e elegante, tudo o que precisa ser. Weiwei consegue mostrar os fluxos tão bem, que a duração de duas horas e vinte (considerada longa para um documentário) passa tão rápido quanto as nossas vidas.

Algo merecedor de destaque é como o filme sempre busca mostrar movimentos, e para isso são utilizados diversos tipos de câmera, variando entre drones, câmeras cinematográficas tradicionais e celulares (muitas vezes o do próprio diretor). Quando há algo se movendo, pessoas, água, ou alguma coisa do ambiente, a câmera fica parada, estática, com as cenas sendo rodadas com a câmera muito próxima do local (quando é o celular), por cima (caso do drone) e na maneira a qual estamos acostumados com a câmera tradicional de filmes, e o oposto acontece quando algo que deveria estar parado está sendo mostrado, como exemplo cito os travellings (movimentos com a câmera indo para frente, trás e lados) utilizados para mostrar os acampamentos, as casas, barracas e os pertences de cada um.

As entrevistas são sensíveis e pelo assunto abordado a sensibilidade é a única forma de conseguir resultados. Todas as pessoas claramente desejaram falar, seja de assuntos felizes ou tristes, e os depoimentos são os mais variados. Graças a eles, o espectador fica mais próximo daquela realidade, logo, quando há algo muito pesado sendo mostrado (o homem mostrando os túmulos onde seus companheiros de viagem foram enterrados) emociona não apenas por ser algo comovente por si só e sim porque o entrevistado se emociona, da mesma forma que a mulher entrevistada de costas (a pedido dela, o filme deixa claro) é uma cena forte por ser real. Fora que as frases de poetas e as manchetes jornalísticas frias e distantes, dão uma noção a mais de como é ser um refugiado.

“Todos nós somos refugiados” disse um personagem do filme “Era o Hotel Cambridge”, essa frase não poderia ser mais correta. Todo mundo foge de alguma coisa, pode ser de si mesmo, do outro, ou das guerras, fome e doenças de sua terra natal, porém, nem todo mundo tem um lar, nem todos têm para onde ir no fim do dia.

“Human Flow” mostra isso, e sinceramente, agora, é só mais pessoas perceberem a mensagem passada pela projeção e passarem a se importar mais com o refugiado ao nosso lado. 

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