12.3.18

Crítica: Aniquilação

Aniquilação
Imagem: Netflix / Divulgação


Andrei Tarkovski era um diretor um tanto quanto ousado, mesmo para os moldes atuais da indústria cinematográfica. Ao filmar suas duas ficções cientificas, “Stalker” no ano de 1979 e “Solaris” no ano de 1972, ele trouxe uma nova forma de fazer filmes desse gênero, sendo inovador na estrutura e no roteiro destes.

Talvez, Alex Garland (do ótimo “Ex Machina”) tenha se inspirado em Tarkovski para filmar “Aniquilação”, pois o filme traz uma atmosfera similar a de “Solaris”, com um estilo de contar a história parecido com o de “Stalker”. Porém, a obra de 2018 contém simbolismos atuais e se encaixa na época moderna.


Lena (interpretada por Natalie Portman), é uma ex integrante do exército, bióloga e atualmente professora no curso de medicina em uma universidade. Após o marido desta desaparecer em uma missão altamente confidencial, ela parte para uma área isolada dentro do próprio Estados Unidos da América, com o objetivo de investigar O Brilho, que é um outro planeta (se é que se pode dizer isso), todo formado por fauna e flora, que está aos poucos tomando o espaço da Terra.

No fim dessa sinopse já percebemos um simbolismo claro do filme, pode-se definir que o Brilho está ali para fazer a Terra ser o que era antes, ou seja, predominantemente natural, sem a influencia do homem, passando uma mensagem de sustentabilidade, conservação do meio ambiente e assim como “mãe!” de luta contra o aquecimento global.

Mas, mais do que isso, a projeção é uma mensagem em relação aos maus psicológicos (depressão, crise de ansiedade e outros). Até porque, a obra trata o tempo de destruição e enlouquecimento causados pelo ser humano, seja para atingir o outro ou para atingir a si mesmo, para isso, basta reparar no passado das mulheres companheiras de equipe de Lena, todas ali passaram por algo muito ruim ou devido a serem neuroatipicas, se infligiram algo muito ruim de forma não proposital, claro.

Além disso, as mutações da fauna e flora do Brilho também podem ser entendidas como simbolismos para o citado no parágrafo acima, porque elas variam de acordo com o estado das personagens. No inicio do filme, as mutações remetem a vida, como as flores variadas, mas com a mesma estrutura e o jacaré, com o decorrer da obra, tudo muda e vai remetendo a morte ou falta de vida, como, por exemplo, o urso que ataca as protagonistas, as plantas que crescem de acordo com a anatomia humana e as arvores de cristais perto do farol.

Farol que remete claramente a “Zona” do filme de Tarkovski de 1979, um lugar que fisicamente está ali, mas que não serve para ser encontrado e sim para o personagem, ao descobrir sua existência física, se dar conta do peso psicológico representado pelo local. A atmosfera de mistério do filme, lembra “Solaris”, não apenas pelo mistério envolvido pelo Brilho, mas também pela maneira de desvendar, ou tentar desvendar, o mistério em questão.

E o desvendar ou não sem dúvida passa pela personagem de Natalie Portman. Criada com imensa complexidade pela atriz, nunca descobrimos o que Lena está pensando, a não ser que a própria exponha, além disso, com exceção de seu currículo, formação acadêmica e pela morte do marido, não sabemos quem é Lena, e isso é intencional, pois a obra se trata de uma jornada de autodescoberta, e a riqueza do roteiro está em descobrimos junto com a protagonista quem ela é.

Estruturalmente falando, o filme ao usar três linhas temporais distintas, passado (vida dela com o marido), presente e futuro, poderia facilmente se confundir e por consequência, confundir o público, porém, não é isso que acontece, todas as cenas acontecem em um tempo claro e bem definido, graças aos cortes a delimitação foi bem-feita e não há confusão.

A fotografia é algo interessante, se nas cenas passadas em ambientes considerados urbanos, como interiores de prédios e as próprias metrópoles são escuras, predominantemente na cor cinza, as cenas externas, no caso, aquelas acontecidas no Brilho, são claras e com um tom de luz um pouco acima do comum, esse ultimo aspecto serve para deixar o brilho do lugar onde Lena passa a maior parte do tempo.

Rico tematicamente, ousado nos simbolismos e na história, “Aniquilação” é muito mais do que apenas esse título. É um filme que mostra ineditismo em um gênero que vem se renovando, representatividade ao focar em mulheres e complexidade, não apenas por não dar nada de graça ao público, mas por apostar na inteligência dele para a obra funcionar.

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