19.3.18

Crítica: Pendular

Pendular
Imagem: Vitrine Filmes / Divulgação

1980, National Gallery of Art, Dublin, Irlanda, Marina Abramovic e o seu então parceiro Ulay, fazem Rest Energy, uma performance na qual eles ficavam de frente um para o outro, ele apontava uma flecha engatilhada no arco para o peito da moça, caso ele fizesse um movimento, qualquer um, por mais leve que fosse, a flecha seria atirada, não poderia ter nenhum descanso (Rest) durante a performance.

2017, Rio de Janeiro, uma estamparia localizada em algum ponto qualquer da cidade, uma mulher e um homem, os personagens não têm nomes na projeção, pois são símbolos, como explicarei mais adiante. Ela, interpretada por Raquel Karro, bailarina e Ele (representado por Rodrigo Bolzan) escultor, dividem um espaço por igual para prepararem suas respectivas apresentações. Se um dos dois descansa, de maneira metafórica, a flecha simbólica é disparada.

Flecha que a diretora de “Pendular”, Júlia Murat, faz questão de deixar claro que são mais de uma, a das profissões, a da pressão acarretada pelas respectivas carreiras, a pressão do mantenimento de um relacionamento saudável e claro, àquela que representa o futuro da vida entre o casal.


Casal que pode ser resumido muito bem pelo jogo que Ele inventa no banho, onde os três dedos da mão (indicador, médio, anelar) tem que ser usados ao mesmo tempo para criar três círculos que não podem se tocar. Pois, vejamos, a partir do momento que Ela passa a jogar, logo na primeira tentativa os círculos se juntam, indicando uma possível gravidez, cenas depois, dois círculos estão juntos e um separado, querendo dizer uma provável separação, para, mais próximo de seu desfecho, os três círculos estarem totalmente separados, mas unidos pela vitória improvável no jogo.

Pois, assim como a performance de Ela quer mostrar, a vida é um pendulo - como aquele feito por Ela e um amigo em uma linda coreografia - onde as vezes tendemos para um lado, as vezes para outro, nunca estamos no controle, sabemos disso e mesmo com esse conhecimento, queremos segurar o pendulo com a ponta do dedo. Ou, queremos evitar as brigas nos relacionamentos que construímos, sabendo ser impossível, assim como as cadeiras sempre se cruzando em uma das belas danças de Ela.

Isso mostra como as danças do filme resumem bem um dos princípios de Abramovic, aquele de guardar todas as ideias que temos, percebermos que nestas há uma linearidade e quando tivermos uma ideia nova, fugindo da continuidade das passadas, executa-las, pois essas são as práticas que nos farão avançar, tanto como artistas, quanto como pessoas. (Pensamento exposto em uma das palestras ministradas por ela no Brasil, durante a exposição “Terra Comunal”, no ano de 2015).

Esse principio acaba por nos levar para a pergunta inerente do filme: “O que é arte?” e o bacana é que o filme mostra como tudo pode ser arte, desde uma dança em um tablado, passando pelas esculturas feitas por Ele e pelo cabo ligado a toda estamparia, cabo este que intriga Ela durante toda a obra.

Tudo isso são símbolos, principalmente o casal, mostrando como tudo é vago, desde a existente química entre eles, até o sexo realizado com tanto ardor e a profissão destes, na qual fica bem claro em certos momentos que eles “não têm a mínima ideia do que estão fazendo” como diz Ele em determinada ocasião sobre sua mostra.

Mas, não tem problema em não saber o que está fazendo, desde que ainda estejamos tendo ideias, percebendo a linearidade nelas e quando um desses pensamentos não seguir essa linha, executa-lo, e é isso que “Pendular” mostra tão bem. A vida é um pendulo, não adianta querer controlar, temos apenas que executar. 

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