10.9.18

Crítica: Camocim

Camocim
Imagem: VITRINE FILMES / DIVULGAÇÃO

Em dado momento de “Camocim”, um morador da cidade diz que “em época de eleição, amigo vira inimigo, minha vó, cara, minha vó, que vota no vermelho, fui abraçar ela e eu tava de azul, ela não quis me abraçar porque tava de azul.”

De quatro em quatro anos, a maioria das pessoas tem o mesmo sentimento que a avó desse rapaz, devido a intensidade com a qual defende seu candidato, sua ideologia e com o desejo de propagar, por amor ou por terror, aquilo que o seu candidato acredita.

Dirigido por Quentin Delaroche, “Camocim” é um documentário que acompanha Mayara Gomes, uma jovem que é organizadora de campanha de um amigo candidato a vereador da cidade que dá título a obra. Partindo disso, vemos como a politica faz as pessoas mudarem ali, uma cidade se dividindo em duas.


O filme mostra muito bem como a política, apesar de ser igual para todos em uma cidade grande, onde as pessoas não se sentem obrigadas a se envolver nas campanhas e nos atos, em uma cidade pequena, é impossível não estar envolvido, porque é muito mais fácil o acesso ao candidato e a família deste, além da campanha atingir as pessoas de forma mais efetiva, que usa essa proximidade para conquistar votos.

Proximidade bem aproveitada por Delaroche no uso de câmera, sempre perto das pessoas envolvidas e com o objetivo de criar empatia, principalmente no público que vive em grandes cidades e que pensa que nas cidades pequenas a política não tem o mesmo efeito.

Mas, é aí que está o cerne da questão que “Camocim” quer expor, vivemos em um cenário de medo, onde as pessoas tem medo umas das outras e onde a política contribui para alimentar esse medo e não para cura-lo, assim, apesar de uma campanha politica envolver mais pessoas em uma cidade pequena, por elas serem atingidas mais rápido pela busca de votos, a violência que ocorre por causa da eleição é a mesma, ou até pior, do que aquela que acontece em uma cidade grande.

O que nos leva a vó do rapaz do primeiro parágrafo, a fala em questão é real e as cenas das brigas dos atos ocorridos na cidade de Camocim contrastam muito bem com aquelas onde são gravados os jingles divertidos com músicas famosas, dá para ter diversão na eleição, porém, infelizmente, amigos viram inimigos dependendo de quem votam.

A montagem da obra, além de manter um ritmo invejável, faz o filme durar o tempo certo e expõe muito bem os sentimentos de cada pessoa em relação a eleição e a campanha que Mayara está liderando para eleger o seu candidato a vereador da cidade, sendo que todo o trabalho da moça é feito de forma competente e da maneira certa de fazer tal serviço, buscando convencer pelo dialogo e não pelo medo.

“Camocim” é um filme necessário hoje, por mostrar o medo que domina a sociedade em tempos incertos, por expor uma forma bacana de fazer política e por ser um estudo de personagem interessante. Ver esse documentário, daqui um ou dois anos, pode servir como um objeto de análise de uma sociedade que com certeza vai mudar até lá.

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