27.9.18

Crítica: A Moça do Calendário

A Moça do Calendário
Imagem: PANDORA FILMES / Divulgação
“O Brasil é sério, mas é surrealista”. Essa fala, do personagem Inácio, protagonista de “A Moça do Calendário”, resume bem o filme que estamos vendo, ao mesmo tempo em que contribui para iniciar um relato de um país onde o povo sempre sofre primeiro.

Dirigido por Helena Ignez, com roteiro de Rogério Sganzerla (que foi seu marido e é conhecido pelo filme “O Bandido da Luz Vermelha”), “A Moça do Calendário” é uma obra que remete ao Cinema Marginal – conhecido pelos trabalhos do próprio Sganzerla e de Júlio Bressane, movimento que foi popular em meados dos anos 60 e 70 – devido a sua montagem, história e retrato do país naquela época.

Acompanhamos Inácio, interpretado por André Guerreiro Lopes, um mecânico, morador do centro de São Paulo. Com um patrão altamente abusivo, uma relação inexistente com o pai e um relacionamento amoroso conturbado, ele se refugia em pensamentos com a Moça do Calendário, a qual deseja ardentemente, até que ele a encontra mais perto do que imagina.

Usando essa história como ponto de partida, Ignez e Sganzerla usam elementos cotidianos da vida: ver alguém e achar essa pessoa bonita, porém sem aborda-la, a estrutura da cidade e a base da pirâmide social, para falar sobre a situação social atual.

Até porque, Inácio faz parte da base da pirâmide e esta vem sendo destruída de maneira gradual. Ignez não faz a menor questão de esconder a posição política em relação ao capitalismo e a relação “Patrão – empregado”, usando a cor e a falta dela, nas cenas em preto e branco, vemos o trabalho de Inácio, nas coloridas, vemos como ele gosta de passar o tempo pelo centro da cidade.

E não é a toa que, nas cenas onde ele está no trabalho, é onde ele tem seus sonhos com a Moça do Calendário (interpretada pela ótima Djin Sganzerla), pois, além dos desejos, ele usa esses pensamentos como fuga de uma vida que odeia e da qual não enxerga saída, a não ser a moça do título e a cidade de São Paulo.

Que também é uma personagem do filme, Ignez mostra que São Paulo é uma cidade grande não apenas no tamanho, mas também na quantidade de protestos, movimentos políticos, ideologias e histórias que cabem nela, a pluralidade da metrópole está presente, graças as cenas quase sem cortes, onde pelos movimentos de câmera, podemos reparar nessa grandeza da cidade, na beleza dela, ao mesmo tempo em que acompanhamos o personagem principal nas suas andanças, uma referência estilística (consciente ou não) ao expressionismo alemão.   

Essa pluralidade também é exposta nas músicas e nas histórias paralelas a de Inácio, o filme mostra que não é porque a vida dele está ruim, que a dos outros não podem ser boas e/ou ruins também. São nesses momentos que se concentram os melhores diálogos da projeção, onde são expostas as opiniões e ideologias, das mais variadas, mas que fazem um protesto social, como, por exemplo, na cena onde uma professora fala que foi presa por citar Bakunin, ou naquela onde vemos Iara (o nome da Moça do Calendário) no seu trabalho de ativista política, com foco na reforma agrária, divisão de terras, habitação, feminismo e liberdade de expressão feminina.

Porém, como dito, é um filme que se encaixa no Cinema Marginal, ou seja, tudo é mostrado de forma não linear, através de cortes secos que se revezam com os movimentos de câmera ritmados citados acima, que traz novos gêneros ao filme, indo do drama para comédia, para o cinema de protesto e até mesmo para o musical.

Já que a trilha sonora é incrivelmente variada e as atitudes tomadas pelos personagens e principalmente o som delas, combina de tal forma que o filme e o ambiente urbano contribuem para a criação de um ambiente musical, este começa a ser construído desde a primeira cena, quando Inácio “rege” o trânsito da capital paulista.

As atuações estão ótimas, André Guerreiro Lopes faz Inácio ser uma pessoa ciente de seus erros, com uma ideologia fixa e que mesmo nos seus sonhos, faz a sua vida não dar certo, como se quisesse se punir dos seus erros, além de ser machista, sexista e ter consciência disso. O ator tem uma presença física que domina a tela e chama a atenção do público de maneira imediata. Djin Sganzerla quebra a idealização da “mulher perfeita” criada pelo machismo a cada momento em que aparece, uma personagem que não precisa de ninguém para sobreviver a não ser si mesma, através de falas como “eu prefiro ser um bem necessário” e “meu chapa, teu tempo acabou".

Assim, Ignez, adaptando o roteiro de Sganzerla, mostra como o cinema pode e deve ser uma ferramenta de protesto, como o Cinema Marginal foi necessário para a criação de consciência social e como Inácio diz, “a destruição é criativa” e no momento, há material a ser aproveitado.

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