3.9.18

Crítica: Praça Paris

Praça Paris
Imagem: IMOVISION / Divulgação

Nos últimos anos, o cinema nacional tem sido prolífico ao fazer grandes filmes com críticas sociais pertinentes a atualidade. Se esse tipo de produção já é corajosa em tempos “de paz”, na situação de hoje, obras assim se tornam atos de protesto, com fins didáticos e claro, políticos.

Levando em consideração a trajetória de vida da diretora Lúcia Murat, presa política, torturada na época da ditadura civil militar, esse cinema de protesto é esperado, mas, a forma como ela faz seus filmes surpreende, pelas inovações sempre inseridas nas histórias e ou gêneros fílmicos.

“Praça Paris” é um filme que faz o público pensar, pelo seu início, que será apenas mais uma crítica social pertinente, usando a relação entre duas mulheres, uma branca, rica, terapeuta e portuguesa, outra negra, periférica, ascensorista e brasileira. Mas, a obra acaba por ser um thriller de suspense com tensão a todo momento, ao mesmo tempo em que a crítica esperada é feita.


Gloria (Grace Passô) é uma mulher que vive no morro da providencia no Rio, ela começa a ir em sessões de terapia, nas quais é atendida por Camila (Joana de Verona). Nas sessões e na vida de Gloria, descobrimos que ela sofreu abusos do pai, que o irmão dela está preso e ela lhe faz visitas regulares.

A obra usa a montagem para criar tensão e expor críticas sociais relevantes, principalmente sobre o sentimento de medo que atingiu a classe média e a faz se mexer, adotando politicas um tanto quanto incomuns – vide a atual situação no Rio de Janeiro. Junto a isso, o desenvolvimento da relação entre as duas personagens é realizado e aprofundado graças a um roteiro excelente que trabalha bem esse relacionamento junto com o suspense.

Em relação a montagem, os cortes são feitos de forma a mostrar o choque de realidades entre uma mulher e outra, assim, o uso predominante, com exceção das cenas onde elas estão juntas, é o da montagem alternada, mostrando ora a vida de uma, ora a de outra e as respectivas diferenças nas rotinas, uma mora bem, ganha bem e tem tempo para lazer, a outra, mora na comunidade, ganha um salário mínimo e não tem tempo para nada, devido ao irmão.

Mas, também devido a busca por uma relação duradoura, onde ela possa se apoiar, porém, ela é oprimida em suas tentativas, o irmão dela, apesar de querer protegê-la, acaba sendo cruel, como a própria Gloria diz “ele não nasceu ruim não, doutora, ele ficou ruim”, na igreja, ela não encontra as respostas que deseja na palavra de Deus, na terapia, a doutora, apesar das boas intenções, acaba oprimindo-a por agir com inocência em relação aos acontecimentos violentos nos morros e também por perpetuar o racismo com certas atitudes.

Atitudes essas que são fruto do medo, sentimento gerado devido à violência relatada pela paciente e pela mídia, assim, um momento assustada, Camila não consegue mais se desvencilhar e ter a empatia necessária para viver e ser inclusiva com pessoas não pertencentes a mesma classe econômica que ela.

Esse aprofundamento só é possível pelas grandes atuações de Grace Passô e Joana de Oliveira, duas atrizes fortes, dominantes na tela e que não desaparecem quando juntas no mesmo quadro, vide a brilhante cena do elevador e uma outra que acontece no apartamento de Camila.

As duas cenas citadas representam, de forma sintetizada o medo citado mais acima, esse sentimento é a grande força motriz do atual cenário político brasileiro e uma questão importante nas questões sociais. Caso não superemos esse medo, não conseguiremos nos unir e nos engajar corretamente em assuntos importantes para a vida.

Camila não conseguiu, como prova aquele belo plano final, não sabemos o que aconteceu com a personagem, e isso não é um problema, pois o que “Praça Paris” mostra é que nunca saberemos o que vai acontecer, a não ser que nos movamos para isso, seja lá em que assunto for.

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