1.11.18

Crítica: Cafarnaum

Cafarnaum
Imagem: DIVULGAÇÃO
Poucas coisas são mais fortes do que ver uma criança triste, principalmente quando o motivo para tal sentimento é o abandono, a vontade de nunca ter nascido, que gera, inevitavelmente, a luta por sobrevivência, descartando a infância e indo direto para a fase adulta.

Zain (Zain Al Rafeea) não sorri durante “Cafarnaum”, em nenhum momento, pois a vida deste não dá nenhum motivo para felicidade. Dirigido por Nadine Labaki, a obra conta a história deste garoto que, com mais ou menos 12 anos, ele mora junto com os irmãos e trabalha com eles, vendendo várias coisas nas ruas de Beirute, capital do Líbano. Seus pais, cometem um tipo de abandono parental, através da irresponsabilidade na criação dos filhos, deixando comida, roupa e amor faltarem na casa, isso culmina em Zain processando-os, pelo motivo de eles o terem colocado no mundo.

Labaki filma com a câmera na mão quase o tempo todo, usando o estilo neorrealista, com elenco predominantemente infantil, para expor como Zain foi abandonado pelos pais e não queria ter nascido nunca, mostrando a falta de identidade do garoto, ele não tem nenhum documento, sabe apenas seu nome e se comporta como adulto porque essa é a única forma encontrada por ele para encarar o mundo.

Pois, para Zain, não existe amor, em casa, nem ele e nem os irmãos tem afeto ou carinho vindo dos pais, então, ele tenta ser criança, através de brincadeiras com Yonas, filho de uma refugiada etíope do qual passa a cuidar e assim, Zain vai perdendo sua vida, apenas fazendo um esforço para continuar vivo, sozinho, tentando encarar sua trajetória de melhor maneira possível.

A diretora usa flashbacks mesclados com a história principal, para contextualizar e dar ritmo a narrativa, assim como cortes secos e poucos movimentos de câmera, principalmente no que diz respeito ao processo do menino contra os pais e para abordar vários tipos de assunto, como aborto, crise de refugiados, diversos tipos de abandono parental – não apenas o do protagonista – sempre pelo ponto de vista da criança ou feminino, como já foi feito anteriormente pelo diretor iraniano Jafar Panahi nos seus filmes.

Com essa forma de dar ritmo a narrativa, Labaki consegue estabelecer e fechar bem os arcos construídos, não apenas o de Zain, mas o que envolve o processo e o de Rahil, refugiada etíope, vivendo no Líbano, além de gerar várias reflexões no espectador devido a temática apresentada, mostrando que muita gente apenas tenta viver e tenta tanto que não vive, quantas pessoas não conhecemos que sofreram abandono parental, dessas, quantas nós não sabemos que sofreram coisas similares a que Zain sofreu?

E assim, é só pensar que Zain não pediu para nascer, assim como nenhum dos irmãos dele e a questão não é ter muita coisa, a questão é ter carinho, é apenas o que Zain quer, afeto por parte das pessoas que o botaram no mundo, assim, com certeza, ele conseguiria ter identidade – não apenas o documento em si – mas aquela que forma nossos perfis, no tempo certo, com uma infância e descobrindo a vida adulta com calma. Nadine Labaki, pela sensibilidade de seus filmes, é a diretora certa para contar tal história.

“Cafarnaum” é um soco no estomago!

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