31.10.18

Crítica: Tinta Bruta

Tinta Bruta
Imagem: VITRINE FILMES / DIVULGAÇÃO
Solidão, quem vive numa grande cidade, seja no Brasil ou no mundo, sabe como os centros urbanos são sustentados pela solidão das pessoas que nele vivem. Se “Tinta Bruta”, dirigido por Márcio Reolon e Filipe Matzembacher, pode ser resumido em uma sensação, é a de solidão.

A história é a de Pedro (Shico Menegat), acompanhamos sua jornada enquanto sua vida vai de mal a pior. Após um incidente na faculdade, ele é obrigado a responder um processo sobre isso, sua irmã Luiza, está indo embora para Salvador para trabalhar lá e assim, o jovem fica sozinho. Sua única fonte de renda são as performances eróticas que faz na internet, que consistem em passar neon por todo seu corpo.

Dividido em três partes, iguais em sua duração, vemos como o jovem é solitário em todos os núcleos de sua vida, mas, o que chama a atenção no filme é a forma como os dois diretores estabelecem essa solidão com a câmera, de forma a tentar aproximar o público do personagem, usando a aproximação e closes frequentes.

Ou seja, os diretores usam a proximidade para falar de distância, Pedro está perdendo as pessoas de maneira cíclica, sempre do mesmo jeito, nem sempre por culpa, todos vão embora de Porto Alegre (cidade onde se passa o filme), mas ele fica, devido ao julgamento, mas também devido a falta de escolha, aquele apartamento velho e escuro é o único lugar que ele tem para ficar.

É como diz a música da banda Keane, “Everybody is changing, and i dont feel the same” (todo mundo está mudando, eu não sinto o mesmo). Pedro vê as pessoas ao seu redor mudando, evoluindo, chegando a lugares e níveis na vida que ele quer chegar, mas não consegue devido a circunstancias pessoais, seja pelo julgamento, pela depressão que o assola, pelo medo que sente de se envolver devido as suas experiencias passadas ou pelo sentimento que resume tudo isso: insegurança.

Pois ele sente essa insegurança a cada pequena mudança de sua vida, por isso os nomes das três partes nas quais o filme se divide são “Luíza”, “Léo” e “Garotoneon”(este último, como é conhecido na internet), pois são coisas ou pessoas, que fizeram parte da vida dele em algum momento e que saíram, uns para voltar, outros não, mas, de qualquer forma, na situação atual, ele está sozinho, o que é muito bem passado pela atuação de Shico Menegat, sempre preocupado com o olhar seco do personagem e em transmitir essa insegurança para o público, através desse olhar.

Mas, mais do que a atuação, outro papel que merece destaque é o da música, em geral, a trilha é composta de música eletrônica, a maioria destas nacionais, que envolvem o público na mesma medida em que nos identificamos com a solidão que Pedro sente, fora que, a dança tem um papel importante, seja por ser uma das ferramentas usadas pelo protagonista em seu trabalho, ou por ser a maneira escolhida pelos diretores para mostrar que o personagem está bem, que ele se soltou, em um último plano belíssimo.

Último plano poético pelo peso que tem na trama, bonito pela estética utilizada, importante na trajetória pessoal do personagem e sábio em mostrar que o protagonista não está mais sozinho, que um ciclo se fechou e que outro começou, mesmo que Pedro nem saiba qual é o seu novo começo.

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